Thursday, June 10, 2010

Instantànies de Porto Alegre (en català!) 2

Més fotos tirades amb la càmera del mòbil!

Nota para quem acompanhava o romance: Não parei de escrever. É só que... estou revisando rascunhos, adicionando trechos ao já escrito. Por assim dizer, fazendo o romance crescer desde dentro.



Anna i Manu(ela), al cafè del Theatro São Pedro.


El Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS),
amb una nova il·luminació nocturna.


Entrada del Mercado Público, un dissabte al matí.


Un "bloco" del Carnaval de Recife
de visita a Porto Alegre.



Manu a la fira de productes agrícoles
celebrada als magatzems del port.



Una premsa de raïm manual
(exposada a la fira).


... Els meus pares deuen saber el nom d'aquestes màquines antigues
per fer vi (jo també l'hauria de saber...).


Un dels molts sistemes
"anti-sense sostre" que es troben
a les voreres de les grans ciutats
de Brasil. :(



Treballadors refent els marges
de l'"arroio Dilúvio", canal que
travessa la ciutat.



La Rua da Praia, a l'alçada de
la Praça da Alfândega.



El tros amb més moviment de la Rua da Praia,
un diumenge a primera hora del matí.



La Igreja das Dores, amb llum de
primera hora del matí.



Home fent estiraments al
parc de la Redenção.



Arrels gegants d'un arbre al
parc de la Redenção (petits,
al centre de la imatge, bossa i diari).



Manu i Anna al restaurant Dado Bier
(al barri Moinhos de Vento).



... I jo al restaurant Dado Bier.

Monday, June 07, 2010

Algum comentário sobre Israel?

Há tempo mais de um amigo me disse que não usasse o blog para desabafar, falar sobre coisas que me chateiam ou deixam indignado, senão para falar do que eu gosto ou do que me apaixona. É o que tento fazer. Mas há coisas que não dá para deixar passar. Quando isso acontece, por vezes "uso" meu irmão Uri: ele sabe ser agressivo, radical, usar xingamentos, etc., sem perder a graça. Agora esperava por um comentário dele sobre Israel, mas não chegou. Chegou o seguinte:

"Não, desta vez não vou fazer nenhum e-mail incendiário contra Israel, entre outros motivos, porque:

a) o que eles mesmos fizeram é o bastante incendiário e deixa eles numa situação o bastante ruim como para que não seja necessário insistir no assunto;
b) eu fico puto só de pensar nisso e prefiro manter o bom humor;
c) perdi a fé em que qualquer crítica possa fazer alguém refletir".

Apesar de tudo, ele me indica um artigo do El País, dizendo-me que poderia citá-lo.

O artigo conta como Helen Thomas, a mais veterana dentre os correspondentes na Casa Branca, acaba de anunciar que se aposenta, e não da maneira como ela teria gostado. É porque uma página web chamada RabbiLIVE.com a entrevistou na saída de um pronunciamento do presidente Barack Obama... e o diálogo foi assim:

"Algum comentário sobre Israel?", perguntou o jornalista. "Diga a eles para se mandarem embora de Palestina", respondeu Thomas. "Algum comentário melhor sobre Israel?", insistiu o jornalista. Thomas explicou então a tese que sustentava seu comentário: "Lembre, os palestinos estão sendo ocupados em sua própria terra. Não é a terra dos alemães ou dos poloneses". Thomas foi questionada sobre aonde deveriam ir então os judeus que estão em Israel: "Que vão para suas casas. Que vão para Polônia, Alemanha... América ou outro lugar".

... Essa mulher, com 89 anos de idade, mais de cinquenta na primeira fileira da sala de imprensa da Casa Branca, deve estar tão cansada de ver como os israelenses praticam o terrorismo de Estado, ignoram uma e outra vez, e com total impunidade, os mandatos e as condenas da comunidade internacional, recebem o vergonhoso apoio dos Estados Unidos, etc., que o esquisito é que não falasse algo pior.


Casas em Gaza. (El País)

Saturday, June 05, 2010

Notícias da Copa do Mundo 3

Minha primeira seleção completada (sábado passado)?



Minha segunda seleção completada (hoje)?



É um sinal? :o)



PS: Não entendo como a Federación Española de Fútbol pôde trocar o emblema inspirado em Joan Miró por um outro tão comum e até feio... O novo (à esquerda) parece velho, e o velho (à direita) parece novo, né?




PS2: Desenhado pelo próprio Miró foi o cartaz da Copa de 82. Que também parece mais novo do que qualquer cartaz de qualquer Copa ou Olimpíada posterior (na verdade, nem é um cartaz, né, é uma p#%@ obra de arte...):





Hum. Terceira seleção completada: o Japão. OK. Não é um sinal nem nada. :(

Friday, June 04, 2010

"Açúcar", de Ana Santos

... E depois da publicação de "O Fazedor de Guarda-chuvas" na Cult de dezembro de 2009, e de "O que não é um morango" na revista Ficções de maio de 2010 (essa eu não comentei, a Ana é muito Ana para essa revista, acho), tchanam!, Ana Santos na Bravo! de junho! Com "Açúcar" (um de meus contos preferidos) e "Chapéu-coco, saia de pregas". Ana com cada vez mais difusão (difusão nacional, tchê) e leitores e agora já escritora profissional! ($! ;) Falta menos para o livro O que faltava ao peixe e, quanto às revistas, só resta conquistar a Piauí!

Parabéns, Ana (e muita força).

Comprem, comprem! (Não está no site!)

Wednesday, May 26, 2010

Imagens de uma... correria

Domingo passado, antes do teatro, participei na minha primeira corrida, a 27a Maratona Internacional de Porto Alegre. Sim, já fiz uma maratona! De revezamentos, mas tanto faz. Cada um de nós correu 5,275 km. 5,275 km x 8... = 42,2! A seguir, fotos desse grande dia. (Visualizar melhor com o Firefox.)











O percurso.










Três colegas de minha equipe alongando às ordens da professora de condicionamento físico. Eu ainda estava dormindo.










A saída da maratona de revezamentos. Eu estava dormindo.







O Nilton, o primeiro da equipe em sair. Eu estava dormindo.



Membros de vários times da ACM. Agachado à esquerda, o professor de condicionamento físico. Ao lado, o colega de minha equipe, preparado para sair em meu lugar. Eu estava tomando banho (para quê?).


O Magnus, professor de musculação e corrida, dando instruções ao colega que saiu em meu lugar. Eu já estava no parque. Só não estava encontrando a barraca da ACM.






O Magnus me procurando com seus binóculos. "Puta que o pariu, ele dormiu!"




Eu, depois de chegar e de correr (no lugar do colega) e receber uma medalha, com o professor de condicionamento físico e três colegas da equipe.



A multidão invadindo a pista, esperando colegas de suas equipes para o revezamento. Eu já tinha terminado de correr e comido três bananas.







O último revezamento da nossa equipe.






A camiseta que o João, que assistiu à corrida, me deu em recompensa ao meu sacrifício.











Eu não vi essas gurias!











Três colegas da equipe. O Paulo no meio. Ainda estou aprendendo os nomes...








Os resultados. Meu tempo é o quinto. Podia ter sido pior. Ficamos em 6° lugar. Foi uma manhã memorável.

Comunicação a uma academia, de Kafka

Domingo assisti, com as queridas Anna e Manu (a Manu é uma amiga baiana que está há uns meses na PUCRS) à Comunicação a uma academia, adaptação do conto de Kafka encenada pela Companhia Club Noir no Theatro São Pedro. Havia só 80 lugares, tudo cadeiras no palco (a plateia, as galerias e os camarotes, vazios), os espectadores formando "a academia". A peça é curta e de um único ator - que, difícil de acreditar, é uma atriz, Juliana Galdino; o monólogo de um macaco que, já homem velho, explica por que se converteu à condição humana. A interpretação é fantástica, a maquiagem e a iluminação, também: vimos perfeitamente um homem com rasgos simiescos, ouvimos a voz de quem poderia ter sido, no passado, um macaco. Mas saímos do teatro meio desapontados: esperávamos reflexões, algum soco no estômago, mesmo que sutil. Porém, é Kafka. E Kafka, a gente esquece, é um autor de estilo realista. Reflexões, muito menos mensagens, não são aparentes em sua obra.

Mesmo assim, e pensando a posteriori, a história é forte. Resumindo:

O macaco explica que decidiu tornar-se homem - e que isso foi extremamente fácil para ele - não para poder ser livre de novo (livre, ele diz, era-o quando macaco), senão para sair da jaula do navio holandês que o levava para o porto de Hamburgo. Foi sua única opção: escapando da jaula, teria sido encerrado numa jaula pior, como a da jiboia, que o teria devorado, ou chegado ao convés e se jogado no mar, onde teria morrido afogado. Podia, somente, tentar sobreviver, e isso foi o que fez, por meio da imitação dos humanos, os marinheiros que o vigiavam: fumando e se embebedando como eles, aprendendo a cuspir no chão, conseguindo dizer "Hola". Já em Hamburgo, também não pôde escolher: teve de se aperfeiçoar como homem, deixar de ser o que era. Não fazendo-o, teria ido para o parque zoológico. Fazendo-o, ingressou em nosso teatro de variedades, hipocrisias, mesquinharias e vaidades.

Tuesday, May 18, 2010

Thursday, May 13, 2010

Waldeny Elias :'(

"Sou um homem medroso dentro de um contexto vazio. A sociedade vive dentro de um turbilhão de felicidade enganosa. Tento não me enganar."

"Acredito na pintura que é feita com entrega total. A pintura me renova todos os dias."


Waldeny Elias, em entrevista ao jornal Zero Hora (30/06/2008), com motivo de uma retrospectiva de sua obra no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo.


Na semana passada morreu em Porto Alegre, aos 79 anos, o pintor Waldeny Elias. Conheci o Elias quando foi professor de pintura da Gabriela. Foi o primeiro que ela teve (ou a menos o primeiro profissional), nos últimos meses de 2008, quando ela estava se puxando para terminar Direito e se mandar para a França estudar Artes Plásticas. Eu assisti a duas aulas, fui porque a Gabriela me disse que eu gostaria de conhecer o Elias e de conversar com ele. O que eu queria era ver a Gabriela pintando, mas de fato gostei muito do homem. Era muito alto e ossudo, de olhos grandes e salientes, cabelo branco (um tipo físico parecido ao de J. D. Salinger velho), e mancava de uma perna. Eu nunca tinha estado num ateliê. O ateliê era a casa dele, um térreo no bairro da Floresta. O Elias trabalhava na sala principal, cheia de quadros pendurados nas paredes e apoiados uns nos outros no chão: nus de estilo expressionista, interiores quase vazios, paisagens do pampa. Mostrou-nos uma sala menor, o ateliê de um colega pintor, também abarrotada de quadros. E a outra peça que eu vi foi a cozinha, pequena e muito bagunçada. Quando chegávamos, a Gabriela sentava em frente do cavalete, ele dava-lhe algumas instruções genéricas, falando num tom pausado, ligava o som baixinho (música erudita) e logo ia preparar café. A Gabriela pintava e nós dois ficávamos em duas poltronas velhas, num canto da sala, de onde dava para ver ela, mas não a tela. O Elias fumava, eu era ex fumante; se não, teria fumado com ele com prazer. Gostava de falar de seus pintores preferidos, e comigo falou dos espanhóis (os antigos, se eu lembro bem: Velázquez, Zurbarán, Goya). Contou-me anedotas vividas com Mário Quintana (algumas estão no livro Ora bolas, de M. Q.). Por causa da perna, ele quase não saía, mas, quando jovem, havia participado, sido um membro ativo de vários círculos artísticos da cidade. Contou-me histórias desses círculos, dos anos 50 e 60. Lembro a de um moço que apareceu do nada e de mãos vazias em Porto Alegre, estrangeiro, bonito; não conseguia emprego, mas alguém no grupo de artistas percebeu que era um virtuoso do piano; convidaram-no a tocar no Teatro São Pedro e causou sensação (o maior talento que já passou por aqui, disse o Elias); depois o moço se envolveu com várias mulheres (casadas, supõe-se) e ao cabo de um ou dois anos, assim como apareceu, sumiu. Durante essas conversas, parecia que o Elias deixasse a Gabriela meio desatendida (foi por isso que eu não fui mais de duas vezes). Mas logo pedia licença, levantava-se e andava até ela se apoiando na bengala, dizendo: vaaamos ver como estão essas montanhas. Ficava em silêncio observando a tela (a Gabriela olhando para a tela também, com o pincel no ar); dava a sua aprovação e algumas indicações, e pegava um outro pincel para retocar o sombreado da cadeia de montanhas azuis. Era uma natureza morta com paisagem ao fundo, e lembro que brincou sobre as frutas (o modelo colocado numa tábua de madeira, ao lado do cavalete), dizendo à Gabriela que deveria se apressar, porque já estavam mudando de cor. A nossa conversa continuava, até ele se levantar de novo para fazer uma avaliação final. Eu então ficava de pé, bem atrás deles, querendo ver o quadro mas sem querer incomodar. Foi a própria Gabriela quem me deu a notícia da sua morte. Ela, que esperava reencontrá-lo, ver como ele estava, contar-lhe sobre seus progressos na França, ficou muito triste, lá longe.



Sem título
Waldeny Elias
Óleo, 1981


Sem título
Waldeny Elias
Óleo, 1974

Sunday, May 09, 2010

Somos el Espanyol, nunca olvidamos

"Tamudo, el mejor jugador de la historia del Espanyol, se despide de la afición. Esperamos que vuelvas pronto, Tamudo. Perdónales porque no saben lo que hacen, rezaba una pancarta en Cornellà. Gracias Tamudo, hasta pronto." (Una aficionada del Espanyol.)




Uri 23.

Saturday, May 08, 2010

Invento, Ney Matogrosso cantando Vitor Ramil

Para a Anna, que gosta do Vitor Ramil e da simbologia da casa na literatura.

Tuesday, May 04, 2010

Ciudad sin sueño

O disco Omega, do cantaor Enrique Morente e o grupo de rock Lagartija Nick, revolucionou o flamenco (tantas vezes revolucionado, apesar dos puristas) em 1996. Nele, Morente musicou poemas do livro Poeta en Nueva York, de Federico García Lorca, e aflamencou músicas de Leonard Cohen (uma delas, "Take This Waltz", por sua vez, criada a partir do "Pequeño vals vienés", também de Poeta en Nueva York).

Para a Ana Santos, que gosta de F. G. Lorca e de L. Cohen:



Ciudad sin sueño (Nocturno del Brooklyn Bridge)

No duerme nadie por el cielo. Nadie, nadie.
No duerme nadie.
Las criaturas de la luna huelen y rondan las cabañas.
Vendrán las iguanas vivas a morder a los hombres que no sueñan
y el que huye con el corazón roto encontrará por las esquinas
al increíble cocodrilo quieto bajo la tierna protesta de los astros.

No duerme nadie por el mundo. Nadie, nadie.
No duerme nadie.
Hay un muerto en el cementerio más lejano
que se queja tres años
porque tiene un paisaje seco en la rodilla
y el niño que enterraron esta mañana lloraba tanto
que hubo necesidad de llamar a los perros para que callase.

No es sueño la vida. ¡Alerta! ¡Alerta! ¡Alerta!
Nos caemos por las escaleras para comer la tierra húmeda
o subimos al filo de la nieve con el coro de las dalias muertas.
Pero no hay olvido ni sueño:
carne viva. Los besos atan las bocas
en una maraña de venas recientes
y al que le duele su dolor le dolerá sin descanso
y el que teme la muerte la llevará sobre los hombros.

Un día
los caballos vivirán en las tabernas
y las hormigas furiosas
atacarán los cielos amarillos que se refugian en los ojos de las vacas.
Otro día
veremos la resurrección de las mariposas disecadas
y aun andando por un paisaje de esponjas grises y barcos mudos
veremos brillar nuestro anillo y manar rosas de nuestra lengua.

¡Alerta! ¡Alerta! ¡Alerta!
A los que guardan todavía huellas de zarpa y aguacero,
a aquel muchacho que llora porque no sabe la invención del puente
o a aquel muerto que ya no tiene más que la cabeza y un zapato,
hay que llevarlos al muro donde iguanas y sierpes esperan,
donde espera la dentadura del oso,
donde espera la mano momificada del niño
y la piel del camello se eriza con un violento escalofrío azul.

No duerme nadie por el cielo. Nadie, nadie.
No duerme nadie.
Pero si alguien cierra los ojos
¡azotadlo, hijos míos, azotadlo!
Haya un panorama de ojos abiertos
y amargas llagas encendidas.
No duerme nadie por el mundo. Nadie, nadie.
Ya lo he dicho.
No duerme nadie.
Pero si alguien tiene por la noche exceso de musgo en las sienes,
abrid los escotillones para que vea bajo la luna
las copas falsas, el veneno y la calavera de los teatros.


Sunday, May 02, 2010

Instantànies de Porto Alegre (en català!)

Fotos tirades els últims mesos amb la càmera del mòbil (m'estic aficionant a fer-la servir).

Pels meus germans (en especial pel Ramon, que es nega a llegir res en portuguès) i pels amics de Catalunya que encara entrin al blog (que deuen ser pocs).



Rua da República, una de les
meves preferides de la ciutat.



Café do Mercado. A vegades
hi escric, assegut en un tamboret,
en una taula alta.



Tomàquets farcits, fets per l'Anna.


Vaixell de càrrega
baixant pel riu Guaíba.


Paloma, amiga de la facultat
(en un dels bars de la facultat).



Amiguíssima Anna.


Rua da Praia al matí,
quan els proveïdors dels bars
descarreguen.



Ampolla de Fanta, disseny antic
(no sé per què el van canviar).


Un edifici del centre.


Arbres de la Praça da Alfândega.


Arbre de la caritat (descobert
a l'avinguda Getúlio Vargas).


Home tocant el contrabaix
al Parc de la Redenção.



Un vespre de diumenge
al Parc de la Redenção.



Cícero i Dani, el dia de
l'aniversari (20) del Cícero.



V., fill de la doctora B.
(s'ha de protegir la identitat
dels menors).



Neteja-sabates al centre.


Samarreta-vestit sexy
en una fira de productes de Bahia.



Escultura davant del Cinema Guion
(del que faig jo se'n diu "mão boba").

Thursday, April 29, 2010

Notícias da Copa do Mundo 2

Que se cuide a seleção espanhola, porque a defesa da Internazionale, que ontem eliminou o Bar$a,... é a defesa da seleção brasileira.





PS: Grazie mille, Inter. :) De um torcedor do RCD Espanyol de Barcelona.

Wednesday, April 28, 2010

O sistema vampiro, segundo Ware



Chris Ware, autor de Jimmy Corrigan: The Smartest Kid on Earth e um dos melhores artistas gráficos norte-americanos, satiriza o capitalismo nesta capa da revista Fortune, que foi censurada e substituída por outra, mas está em todas partes na Internet.

Clicar na imagem para ver os detalhes: nos terraços das 500 maiores empresas, os donos e membros dos conselhos dançam e brindam com vinho, guindastes e helicópteros levam para eles carregamentos de dinheiro; no centro, uma chaleira representa o Partido Republicano, ao redor dela dançam seus idiotizados eleitores; o setor financeiro é um casino; Florida, um paraíso da especulação imobiliária; na zona dos grandes lagos, a indústria automobilística está falida; no México, trabalhadores mexicanos são explorados; um outro helicóptero leva o dinheiro dos contribuintes para os três prédios, para resgatar aos especuladores de Wall Street; a Grécia está vazia; as grandes redes de comércio americanas compram barato na China. E deve ter muitos outros detalhes que ainda não vi, como em qualquer desenho de Chris Ware.

Em que estavam pensando, os editores dessa fátua revista, ao encomendarem a capa ao grande Ware? :)


(Obrigado ao Uri por me enviar a notícia.)

Thursday, April 22, 2010

Notícias da Copa do Mundo 1

(Início de uma série que irá até... deixa eu ver no álbum... o dia 11 de julho.)

Notícia 1: "Assaltantes roubam lote de 135.000 pacotes de figurinhas da Copa em São Paulo" (Uol). Ou, 675.000 cromos. Ou, mais de R$ 100.000. Não acho que seja para vender. Acho que até os assaltantes ficaram viciados com o álbum oficial da Copa do Mundo...

Notícia 2 (anterior à 1): "O desabastecimento de figurinhas na cidade se São Paulo vem gerando irritação de consumidores e donos de bancas de jornal". A notícia explica que, apesar de ser uma mania há décadas, o sucesso do álbum de figurinhas da Copa deste ano está surpreendendo todo mundo. E todo mundo está irritado com a Panini, que se justifica: "Não esperávamos esta mania, o álbum é um mega sucesso. Os envelopes mal chegam às bancas e já se esgotam. Há colecionadores comprando 50 envelopes de uma única vez" ("colecionadores" = nerds). E um dono de banca diz: "Só hoje eu disse mais de 20 vezes que não tinha mais. Veio um cara aqui e comprou R$ 400! Não entendo uma coisa dessas. Ele era um adulto!". É. Esse é o ponto ao que eu queria chegar. Ele era um adulto. Nós somos adultos.

Porque eu (sim) comprei o álbum na segunda-feira da semana passada, depois de ter postado mais um capítulo de meu romance. Contente, me dei esse presente (e disfarcei comprando também a Folha de S. Paulo e a Piauí), e desde então estou achando um prazer abrir os envelopes (já não há como disfarçar, a cada dois ou três dias compro 10 envelopes na mesma banca, que, estou achando, me dá sorte, tenho poucos cromos repetidos), ver se sai alguma figurinha especial (um time, um estádio, o emblema de alguma seleção, um jogador que eu conheça), passar delicadamente as páginas finas do álbum, colar com atenção, no quadradinho, cada figurinha, alisando-a... Um prazer para lá de relaxante (mais do que o ioga, que também comecei a fazer).

Agora entendo o meu pai. No fim do verão do ano passado, depois de, se não lembro mal, três anos de aposentado, peguei ele sentado à mesa da sala de jantar colando figurinhas num álbum. O álbum, do campeonato espanhol, tinha vindo com o jornal de domingo, e eu não acreditei no que via. Falei: "Fala sério, pai, tu não vai fazer isso...". Ele me olhou, com cara de abobado: "Por que não? Tô gostando...". Eu falei para meu irmão: "Ei, tu, diz para ele não fazer isso!". Meu pai estava aposentado, sim, com muito tempo livre. Mas aquela regressão à infância???

Bom, pai: eu regredi também. E ia escrever este post mesmo antes de saber que tantos marmanjos ("homem adulto, ou abrutalhado") do Brasil estão dedicando seus dias ao mesmo passatempo infantil. Isso não é desculpa.

No início fiquei preocupado. (Ia dizer o quê, à mulher a quem compro sempre a Folha ou o Estadão, quando fosse lá pela segunda vez pedir envelopes? Que eram para o meu filho?; ia pensar o quê, dona Madalena, quando viesse arrumar o apê e visse o "South Africa 2010 FIFA World Cup Official Licensed Sticker Album" ao lado do Dicionário de Sinônimos e Antônimos?; ia reagir como, a amiga e escritora Ana Santos, quando eu lhe revelasse o meu segredo? - ela já reagiu, me disse que podia trocar figurinhas com as crianças às que dá aulas de inglês...; e a Raquel?, a Raquel ainda não sabe...) Nunca reneguei de meu lado infantil, mas, colecionar cromos, nessas alturas? Precisava, de mim para mim mesmo, de uma boa explicação.

A explicação não veio (não tem explicação). Nessa segunda-feira de há duas semanas tive, simplesmente, um impulso (quero esse álbum) e uma intuição: fazer a coleção pode ser relaxante! E a intuição estava certa, está sendo relaxante e gostoso, já disse, meu novo passatempo. Depois pensei em meu pai, entendi ele, com seu álbum do patético campeonato espanhol. E me senti melhor, gostei de estar fazendo como ele. E vieram lembranças de décadas atrás. Especialmente, de um álbum de cromos, que ainda conservo, bem guardadinho, como se fosse um livro, titulado Mamíferos. (Como qualquer criança, eu gostava de golfinhos, mas foi a partir desse álbum, com desenhos hiper-realistas de todas as espécies, que passei a gostar para sempre de cetáceos.) Não conservo nenhum outro álbum. Só lembro de ter completado outro (mas esse não era meu, era de toda a família) sobre "Árvores de Barcelona".

Lembrei, também, das palavras que usávamos para trocar figurinhas (que no Brasil devem ser diferentes; como é que eu vou fazer?), mas não de com quem as trocava, nem de quais eram as coleções (tenho lembranças mais vivas das bolas de gude, as "canicas", que ganhávamos ou perdíamos para os amigos em cada jogo). Um cromo repetido era "repe", ou "tengui". Um cromo que faltava era "falti". Daí o cara ia mostrando suas figurinhas e a gente entoando: "tengui, tengui, falti, tengui, falti". Isso a gente fazia na escola, mas meus pais me levavam também ao Mercat de Sant Antoni, onde aos domingos pais e filhos se reuniam para trocar figurinhas, revistas, tudo. No mercado, eu preferia as bancas: nelas havia todos os cromos, bastava comprá-los.

Em fim. Feita pública a confissão, não sei o que mais dizer. É bom voltar à infância. Mas há uma coisa que me inquieta. O tema dos álbuns. Eu era tão nerd assim, fazendo a coleção de mamíferos aos seis ou sete anos? E hoje virei o quê, com essa besta coleção de rostos de futebolistas?

Saturday, April 17, 2010

Traduccions de Brasil 62 (O nada, de Cidadão Instigado)



La nada

Abrid las puertas de vuestras casas
Dejad que entren los ladrones
Intentarán llevarse todo lo que puedan.

Y te sentirás cansado
Y también muy triste
Y te irás a caminar por ahí
Pensando en tus propios pasos
Fluctuantes
Con aquel deseo de desaparecer
Progresivamente.
E irás... irás
E irás... irás
Desapareciendo poco a poco
Y después volviendo a la realidad
Y a la nada.

Y así, cuando sepas seguro que ya no posees nada
Y ya no te pertenezca ni tu propio dolor
Quizá
En algún momento
Te libres de esos pensamientos
Y te sientas
Empezando
Renaciendo
Solitario
Vislumbrando
Un nuevo momento.
Por eso

Abrid las puertas de vuestras casas
Dejad que entren los ladrones
Intentarán llevarse todo lo que puedan.

Tuesday, April 13, 2010

Capítulo 30 (novo rascunho)

Na quinta-feira, andei a passo normal até o metrô, resolvido a descer normalmente as escadas, pegar o trem rumo a Manhattan e refazer velhos caminhos de 2000. E Anne estava lá, seu corpo perfilado diante de uma viga vertical, com seu casacão aveludado e uma boina em vez do gorro de lã, sua cabeleira cheia. O trecho central da compridíssima plataforma (de uma entrada não se enxerga a outra) está sempre vazio; os passageiros se concentram do lado de um dos dois acessos. Na entrada de Bedford não havia mais de quinze ou vinte pessoas. Quando a vi, fiquei parado, nervoso, sem atinar no que poderia lhe dizer - três dias desejando encontrá-la e na hora não saber. Reagi quando ouvi muito ao longe o rumor que antecede à chegada do trem. Então me aproximei dela, dei-lhe um oi de uma certa distância, um oi alongado, como se eu fosse um estranho e ela pudesse se sobressaltar. Anne me cumprimentou de volta, surpresa de verdade.
-Senhora psicóloga - eu disse, num tom entre reverente e provocador (do catálogo dos tímidos).
Ela me olhou processando as palavras, como se eu tivesse errado a profissão.
-Senhor escritor - retrucou. Respondi puxando os cantos da boca por uma fracção de segundo.
-Estava pensando em você - eu disse, sem querer ser levado a sério. - A caminho do trabalho?
-Ãhn ãhn. - Anne adotou uma postura mais erguida, que nela parecia natural: - E você?
-Vou dar uma caminhada. Depois volto para o café.
-Com este frio?
-Com este frio. Não parece que o tempo vá mudar. - Eu ia dar mesmo uma caminhada, só não podia lhe dizer à procura de quê.
-Está bem, vai lhe fazer bem.
Fiz cara de não entender.
-Caminhar. Faz bem para todo mundo - Anne disse.
Assenti com a cabeça, de lábios fechados. Talvez estivesse pensando em seus pacientes.
Quis perguntar-lhe sobre eles. Saber que tipo de psicóloga ela era. Saber se seus pacientes eram as únicas pessoas que ela via. Imaginei-a no consultório e de noite em casa, revisando as anotações do dia. Sozinha.
-Sabe? - eu disse sorrindo. - Sempre quis ter uma psicóloga.
Anne me fitou estreitando os olhos. Sorriu também:
-Psicóloga mulher? - Não me deixou responder. - Qual é o problema do senhor?
Solidão, o mal do século (mas, que século?), ansiedade, depressão.
-Writer's block - eu disse.
-Ah, isso. - Dor de cabeça teria causado um efeito maior.
Ela olhou em volta, inclinou-se para mim, sussurrou:
-Eu não trato amigos.
Senti seu sopro na orelha, me arrepiei.
-Também não trato vizinhos - logo emendou.
O trem estava entrando com grande estrondo na estação.
-Isso é norma, está nos livros?
-É facultativo - ela disse, levantando a voz.

Entramos juntos no vagão, sentamos juntos. Anne não tirou o casaco, nem as luvas, só a boina. Pude ver de perto seus cabelos, senti um cheiro adocicado bom. Diferente do verão, quando o calor na plataforma é sufocante e as pessoas esperam ansiosas pelos trens, agora o frio não dá trégua, é tão intenso aqui abaixo como na superfície, ou então demora muito para sair dos corpos. Com todos os passageiros agasalhados, os vagões parecem mais lotados do que realmente estão, e as pessoas, volumosas, ficam coladas as umas às outras, criando cadeias ininterruptas de impermeáveis, felpudos, couros forrados, lãs. Através de camadas e camadas de tecido, sinto o braço e o ombro de Anne, que tem os antebraços em cima do bolso, uma mão ancorada na outra. Eu sento direito, tentando não apertar o jovem corpulento do outro lado, que usa fones de ouvido por cima de um boné com viseira de time de futebol. Minha vizinha não fala. Olha para o alto, eu olho também: os anúncios de um filme de terror adolescente e do aquário de Coney Island, com a foto de um tubarão mostrando as mandíbulas. Ouço o ruído pneumático, intermitente do deslizar sobre os trilhos. O silêncio no vagão só não é constrangedor porque é compartilhado por pessoas igualmente sonolentas ou entediadas.
-Problemas com sua múmia, então? - Anne diz, baixinho.
-Sim. Com seu namorado, mais bem. Ele é quem sabe da história. Eu só posso conjeturar.
-Não é esse o trabalho do escritor?
Anne gosta de alfinetar, eu gosto de aproveitar para contemplá-la. Usa brincos de aro grande prateados, batom suave nos lábios. As maçãs do rosto, proeminentes, dão mais vigor ainda ao seu olhar.
-Talvez. Mas quem diz que eu seja.
Anne reprime o riso. Logo diz:
-Procure ele.
-Está preso em Arequipa.
-Ele está preso? - Deixa os lábios entreabertos, os dentes brancos à mostra.
-Num sanatório.
Resumo para ela o que Alberto R. fez no museu. Falamos tão baixo que parecemos estar conspirando. Não faz mal.
-Escreva-lhe - ela diz.
-Escrever o quê?

De pé, uma mulher lê a New Yorker dobrada, tira a luva para virar a página. Um homem lê um romance de Joseph O'Neill que eu vi em algumas livrarias, que ganhou um prêmio importante. Uma outra mulher, também de pé perto das portas, prende a atenção de Anne, que acompanha o diálogo mudo entre ela e a filha. A menina, de uns cinco anos, está sentada à nossa frente, inquieta, o rosto tristonho. Dá mostras de querer se levantar, juntar-se à mãe ou ceder-lhe o assento. A mulher parece muito cansada, está com olheiras. Faz uma careta como que agradecendo e um gesto para que a filha não saia do lugar.
-Deve ser difícil, reviver uma morta - Anne diz, de modo insuspeitado. Às vezes, aprendi com J.-P., há mais informação no tom do que nas próprias palavras ditas. E ela diz isso com uma melancolia que espanta.
-Você não acha? - ela diz girando de repente para mim. Seus cabelos esvoaçam e uns fiozinhos acariciam meu nariz.
-E fazer com que alguém se apaixone por ela...

O trajeto no segundo trem é curto, a travessia subterrânea do rio. Ambos descemos na estação de Union Square. Penso em inventar uma destinação ao norte, mudar o passeio. Mas desisto. Anne, ao fim e ao cabo, vai trabalhar. Eu talvez também. Despedimos-nos num cruzamento de galerias (ela me estende a mão), os únicos parados em meio ao turbilhão. Ela segue em direção Uptown. Quando já está de costas, lembro:
-A música que você escuta, o que é?
Ela não se volta.
-Anne!
Ela vira o rosto apenas o necessário, o instante justo para dizer:
-É brasileira!

Saio do lado da praça. Ao meu redor, as pessoas continuam a andar depressa. Logo as ruas desta parte da cidade ficarão desertas. Os empregados não deixarão seus postos até o fim do expediente (não sairão nem para almoçar); os estudantes da NYU se encerrarão em suas respectivas faculdades. Atravesso até a loja da Virgin para tomar o café da manhã. Faltam cozy cups em Manhattan. Deve havê-los, escondidos em ruazinhas do East ou o Greenwich Village; de resto, só há Starbucks, lojas de redes de lanchonetes, cafés de livrarias ou de museus. São mais das 9 h e o local está vazio. Um segurança está dentro, resguardado, próximo à porta; uma moça espera atrás do balcão, fazendo nada. Ela tenta ser amável, recomenda-me un sanduíche. Está com sono, não consegue segurar uns bocejos. Dou uma olhada nas revistas. Pego um livro no primeiro expositor da loja, no limite entre esta e o café: um livro de graffiti e outras formas de arte urbana, que folhe-o enquanto como. Quase todas as intervenções são políticas, ataques diretos ou irônicos às guerras de Bush e Blair. Talvez seja o máximo que se possa fazer. Esses líderes não ficarão envergonhados por serem comparados com Hitler ou retratados com sangue jorrando das mãos; mas melhor essa revolta pública do que xingá-los quando aparecem satisfeitos na TV - como fazia minha avó, jogando o corpo para a frente, com risco de cair de sua cadeira de braços ou ter um ataque de hipertensão. Música brasileira. O que é que eu sei? Poderia procurar aqui na loja. Ou melhor, perguntar a Anne. Seria a maneira. Outra seria contar-lhe a história de Alberto R., a quem poderia tentar escrever uma carta (por que não) nessas horas infrutuosas no café.

Monday, April 12, 2010

Mark Gungor's Tale of Two Brains

Funny and... quite true!




And this is from last week, the South Park episode about Facebook: "You Have O Friends".

Friday, April 09, 2010

Capítulo 29 (rascunho)

A solidão nos deixa tristes e a tristeza nos torna frágeis. Por isso não me decido a bater à porta de Anne, ou a aparecer no patamar da escada, de manhã, na hora em que ela sai. Mas há semanas penso nela, quero encontrá-la, ouvir sua voz, sentir de novo seu olhar, gozador ou ensimesmado. Não sou de ficar espionando, nem de tecer estratégias, mas por três dias tentei provocar o encontro. Enquanto me arrumo, ouço movimentos no andar de cima, arrastar de cadeiras, passos. Acredito distinguir o som amortecido de uns pés de meias, ou chinelos, na madeira, do som seco e vigoroso do salto alto. Morar sozinho aguça o ouvido. Então eu saio, entre as 8 e as 8:15 h. Em vez de dobrar à direita na rua Clifton e ir direto para o café, continuo pela avenida Bedford, tão devagar quanto eu posso, como se fosse pegar o metrô. Faço esse pequeno contorno sem olhar para trás, desejando ser avistado por ela, e que ela não mude seu caminhar apressado (não teria por quê), me alcance. Só no final, quando atravesso para a outra calçada, olho de viés. Sem rasto dela, sigo em frente, passando pela boca de metrô, desiludido, dirigindo-me ao Cozy Cup no sentido contrário do habitual, acenando com a cabeça para um ou outro rosto mais ou menos familiar.

Fico no café por horas, até depois do almoço, no banco da mesinha do corredor. Aguardando lembranças de nove anos atrás, pensando em Alberto R. Rabiscando ou desenhando no caderno, deixando-o aberto por alguma página escrita pela metade antes de a garçonete vir me atender ou alguém passar para ir ao banheiro. Desenho a caneca de cerâmica vitrificada ou o que enxergo desde minha posição, uma ponta do balcão, com a caixa e alguns bolos expostos, a carcaça grená da máquina de café, os quadros negros pendurados no teto, com nomes de saladas, sopas, doces escritos em giz, numa elaborada imitação de caligrafia infantil. A gravura na parede prende minha atenção, demoro-me observando-a. É uma mulher que pula de um prédio alto, no que parece a representação de um suicídio, mas não é - não acho que seja. (No sábado passado, um menino ficou olhando o quadro, enquanto o pai escolhia um jogo na prateleira ao meu lado; assinalando com o dedo a mulher, o menino perguntou o que era; um anjo, disse o pai.) O prédio é semelhante àquele que eu vi na Quinta avenida, um castelo medieval. Um de seus andares preenche o lado direito do quadro, em primeiro plano, como se pintor e observador vissem a cena de uma janela desse mesmo andar. O céu ocupa as outras duas terceiras partes: em cima, uma nuvem preta ameaçante; no meio, ar cor de água-marinha acinzentado; na base, o contorno distante da ilha de Manhattan e as águas da baía, de um preto esverdeado tomado do céu. (A perspectiva é impossível. Onde se ergue o castelo?, acima do Brooklyn, do Queens?) Dois raios de sol furam a nuvem, deixando um trecho de mar reluzente, em volta da ponta da ilha, e iluminando o castelo (os arcos, os parapeitos, as pedras do muro) e a mulher. Ela pula de costas, com as pernas e os pés esticados, o corpo flexionado na cintura, num ângulo reto; a cabeça e os olhos fechados no centro exato da composição. É uma mulher executando um salto ornamental, vestindo um colorido maiô de natação. Ela não cai, nem está em movimento (só a memória de um salto traz esse pensamento): está parada no céu. Seus cabelos são da cor do castelo, branco e cinza alternado, como os de uma estátua; em contraste com as coxas, as pernas e os pés, de pele fina e tersa, que são de uma mulher real. Parece uma cena de filme, uma cena onírica, de um filme voltando atrás. A mulher abaixa lentamente as pernas, endireita o corpo, vai subindo e retomando a posição vertical. Até pousar com graça, os braços estendidos, no lugar não visível de onde saiu. Um anjo sem asas.

Alguma vez pensei em pular. O medo que eu sentia, o efeito indizível de pensar que poderia não voltar mais ao normal - a ser quem eu era -, ficar para sempre me torturando ou cair do "lado de lá", levou-me a imaginar um final parecido. Se eu não consigo me recuperar, nesses momentos pensava, vou preferir morrer. Mas a possibilidade de enlouquecer para sempre me alarmava de maneira passageira (nunca se tornou assunto, nem com J.-P.). O medo é um sentimento, e minha mente, ocupada como estava em resolver uma pergunta após outra, deixava que esse e outros sentimentos aflorassem, mas dava-lhes muito pouco espaço, muito pouco tempo, insuficiente para poderem se assentar.

Volta e meia penso, agora, se não seria melhor ir para frente, passar para um novo estágio, abrir-me ao que vier. Todos temos nossas feridas, disse a mulher do parque, nossos traumas. Eu tenho a minha, mas seus efeitos já ficaram para trás. Esta não é uma escrita terapêutica - não mais do que qualquer escrita é. Quando ela ter-me-ia sido útil, eu estava privado da liberdade e da calma mínimas para empreendê-la. Por isso nos cadernos só há desabafos, exortações a mim mesmo a não desfalecer, citações encontradas em livros que eu achava que podiam me ajudar, breves notas. O que me leva agora a querer reviver, contar tudo? Uma espécie de dívida contraída com alguém? Foi bom ter começado a escrever anos antes de ficar doente. Porque o que me permitiu não afundar foi a convicção de que aquilo que me estava acontecendo mereceria, no futuro, ser contado; embora precária, essa foi minha tábua de salvação. Não importa quão grandes sejam os sofrimentos na vida de um escritor: superados, serão para ele o material de mais valor. Nesses anos da neurose em Barcelona, li o livro escrito por A. E. Hotchner sobre os últimos anos da vida de Hemigway. (Esse livro eu pude ler com atençao, talvez porque tratasse de uma doença mental, Hemingway sofreu de mania persecutória, paranóia). E uma frase do escritou reafirmou minha convicção. "Como diabos se lamentar dos dramas pessoais", disse Hemingway a um fragilizado Scott Fitzgeral, em Paris, "quando se é escritor?. Ao contrário, se ha de estar agradecido, porque qualquer escritor dever ser gravemente ferido antes de poder escrever". É sobre a ferida que se há de escrever, "permanecendo tão ligado a ela como um sábio em seu laboratório". A convicção me deu esperança - viver para contar. E essa esperança foi tão genuína, teve tanta força, que sobreviveu até hoje, quando não é mais necessária. Estou em dívida com uma esperança...

Thursday, April 08, 2010

Tragédia no Rio e Niterói: sempre os pobres

180 pessoas mortas, sem contar mais de 200 ainda soterradas. Mais de 10.000 pessoas desalojadas ou sem casa... Todas as vítimas pobres. Leio isto nos jornais internacionais (a Globo só fala em "moradores", e gosta muito de mostrar esses "moradores" na hora da tragédia). Bom, se as vítimas são sempre os pobres, num país com recursos como o Brasil... de quem é a culpa, hein?

Situação "extraordinária", catástrofe "natural"? Se eu fosse povão ("morador" de "comunidade de baixa renda"), pegava em armas, redistribuía a riqueza, fazia a falada (só falada, sempre impedida) reforma fiscal com minhas mãos.

O mesmo vale para New Orleans. O mesmo vale para o Haiti em relação com os países ricos. Mundo podre, sistema vampiro.


PS: E ainda tem de aguentar essa, uma locutora da Globo chamando pobre de burro. "Estão retirando seus pertences. Graças a Deus", ela diz, "eles têm consciência do que é prioritário". E um homem fala: "Primeiro retirei meu sobrinho...". Não, ele ia retirar seu iPod.

Monday, April 05, 2010

Fazer 90 anos (de novo)

Posto de novo o vídeo que postei sábado e ontem retirei, por um aviso de YouTube segundo o qual tinha sido "bloqueado em alguns países". Fiquei com medo, porque minha irmã não está num país que seja, vamos dizer... (bom, não vamos dizer nada). Finalmente, outro aviso de YouTube me deixou mais tranquilo: o problema não era com governo nenhum, e sim com a Sony (fo*$#se a Sony; será pela música do Serrat, no fim do vídeo?; ele acharia legal, OK?). Enfim, o Yuji gostou muito e até comentou, e eu continuo gostando muito do vídeo que minha irmã fez, desde a Guiné Equatorial, para cumprimentar nossa avó no dia de seu 90º aniversário. Como escrevi sábado, é um vídeo familiar, mais tem mais, por isso achei bom postá-lo. Tem uma receita culinária catalã (conill amb suc). Tem a alegria dos amigos guineanos de minha irmã. Tem música africana (e dança). Tem guineanos falando catalão. Tem coisas importantes que eles dizem (em espanhol). E tem o respeito e admiração pela velhice típica de algumas culturas africanas (e asiáticas), que no Ocidente já quase se perdeu.