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Saturday, December 01, 2012

Os pulmões de aço de Nêmesis

Este post é em especial para o Leo Wittgenstein Wittmann e para o Sérgio Berenguer Lulkin III. O Leo insistiu para que eu lesse Nêmesis e foi quem há pouco me disse que Philip Roth parou de escrever  Nêmesis é, portanto, o seu último romance; o Sérgio também leu o livro e com ele tentamos adivinhar o que era o "pulmão de aço", tão citado, mas nunca descrito, pelo narrador (quem é? ;).

Nêmesis se passa num verão dos anos 40 em que a cidade de Newark  e todo o estado de Nova Jersey, e outros estados  é assolada por uma epidemia de poliomielite. A personagem principal é Bucky Cantor, jovem professor de educação física. Ele é quem cuida dos garotos que jogam beisebol no pátio de uma escola, durante as férias. Vários desses garotos pegam a doença e são levados para hospitais, onde alguns morrem. Sobre os que vão para o hospital, os garotos do pátio não sabem nada com certeza. Somente que podem estar com o corpo meio ou totalmente paralisado ou serem colocados dentro de algo chamado "pulmão de aço". Esse "pulmão de aço" indefinido é o que os garotos mais temem, mais até do que ter o corpo imobilizado ou morrer. (Há outro fator angustiante no romance, outra indefinição: ninguém sabe, e o narrador não chega a contar, como a doença se transmite.)  

Não sei se o Leo pesquisou o que era um pulmão de aço. O Sérgio e eu falamos sobre isso, mas não chegamos a saber exatamente o que era, nem o procuramos. Teria sido, fácil, na internet, mas imagino que estávamos empolgados demais com a leitura como para parar e pesquisar. Há uns dias eu soube, por acaso. Entrei numa livraria e dei de cara com um livro intitulado Pulmão de aço. Vi que o livro tinha fotografias, e lá estava ele. Entendi o porquê do terror dos garotos de Bucky Cantor. Não comprei o livro, talvez o compre, mas tirei uma foto (nunca fiz isso antes): 

Também tirei uma foto da legenda dessa foto, que diz: "Hospital Rancho Los Amigos Respiratory Center, o maior centro de tratamento respiratório para casos de pólio do mundo na década de 1950, próximo a Los Angeles: pulmões de aço resultaram na criação das UTIs".

Essas crianças têm todo o corpo metido nesses cilindros e, dentro deles, estão imobilizados. É aterrorizador. E me espantou, porque mais do que uma ajuda parece um tormento, ver esses espelhos inclináveis que eles têm para ver seu próprio rosto, que é tudo o que podem fazer. O horror é indescriptível, a foto diz tudo.

Mais tarde, me perguntei por que o narrador de Nêmesis nunca descreve o que é o pulmão de aço. É proposital, demonstra o talento de Roth. O Sérgio e eu ficamos a nos perguntar, inquietos, o que podia ser aquilo que tanto medo dava aos garotos. Isso é o que o autor queria. E essa ignorância nossa tinha o seu paralelo no não saber dos próprios protagonistas, os garotos ainda não infectados que brincam no pátio da escola: eles "ouviram falar", sabem "mais ou menos", "algumas pessoas dizem" que os doentes ficam dentro de um "pulmão de aço", imobilizados, talvez para sempre. Mas não sabem exatamente o que é, de que se trata, daí o terror.

A história que conta o livro que não comprei, Pulmão de aço, de Eliana Zagui, também é terrível. Sinopse (copio do site da Cultura): "Eliana chegou ao Hospital das Clínicas de São Paulo aos dois [!] anos de idade, em 1976, com poliomielite, paralisada do pescoço aos pés e quase incapaz de respirar. Foi colocada no pulmão de aço, máquina usada para recuperar o aparelho respiratório, mas não apresentou evolução significativa. Os médicos avisaram aos pais da menina que ela teria pouco tempo de vida. Eliana ainda vive no hospital [36 anos depois!]. Em Pulmão de Aço ela conta como fez para sobreviver aos prognósticos e se tornar uma artista que pinta quadros com a boca". Na capa do livro, também o espelho, para mim apavorante.


Wednesday, November 07, 2012

Por que na história há poucas grandes escritoras?

Duas semanas atrás, a Marinella e eu estávamos falando sobre isso - antes dela ir viajar pelas Europas (tá tudo bem aí, Marinella?).

A resposta é sabida. Mas nunca a achei tão bem colocada como aqui, no seguinte parágrafo de La librería ambulante, livro que ganhei dos meus pais em Sant Jordi, 23 de abril, mas só li há pouco. É um clássico norte-americano, Parnassus on Wheels, de Christopher Morley, publicado em 1921. Um desses "clássicos nacionais" pouco conhecidos fora do país. (Não existe tradução ao português, mas há várias edições em inglês à venda na Cultura.)

A resposta de Morley à pergunta do post é literária (estudos críticos para quê?) e pode ser resumida numa simples frase: se uma mulher sentava dez minutos para ler o gato comia o mingau.

Quem fala é a protagonista do romance, Helen McGill, e o parágrafo diz, em espanhol:

Puedo perdonar a Andrew que sea un granjero inconstante mientras realice a destajo sus tareas literarias. Un hombre puede ser un holgazán en todo lo demás mientras haga una sola cosa con todo el esmero posible. De modo que no importa que yo sea una ignorante en literatura mientras sea la mejor en la cocina. En eso solía yo pensar mientras sacaba brillo, fregaba, limpiaba, desempolvaba y barría, justo antes de ponerme a preparar la cena. Si alguna vez me sentaba a leer durante diez minutos el gato iba a comerse las natillas. Ninguna mujer en el campo puede sentarse más de quince minutos seguidos entre el amanecer y la caída del sol, a menos que tenga una docena de sirvientes, claro. Y nadie sabe nada sobre literatura a menos que pase la mayor parte de su vida sentado. Como usted mismo, profesor. 


PS: O livros está cheio de pérolas como essa e é muito engraçado, ao estilo de Mark Twain.

Friday, November 02, 2012

A casa das sombras, de Patricia Highsmith

(Para o Uri, que está sem boas leituras.)

A casa das sombras (The Black House, 1981) me reconciliou com os contos, gênero com o qual não me dou muito bem. Não lia contos tão bons desde os últimos de Alice Munro, em Too Much Happiness (para quando, aliás, o Nobel para ela?). Parênteses: Tive vontade de conhecer de uma vez Patricia Highsmith (não conhecia: também não me dou muito com o romance policial ou de mistério) em julho em Barcelona, quando li uma entrevista que ela deu ao Babelia. A manchete dizia, mais ou menos: "Só me interessam os loucos e os delinquentes". Gostei, e é tudo o que eu lembro da entrevista. Mas era uma boutade, menos mal. Porque, como alguém já escreveu, nada mais parecido com um louco do que outro louco, e com delinquentes profissionais acredito que seja igual. Fecha parênteses.

A capa do livro é estrategia de marketing, pois os contos não são de mistério, nem perturbadores, como diz na contracapa. Nem de detetives, espiões ou coisa parecida. "... As vidas narradas parecem bastante normais, mas, aos poucos, revelam sua proximidade perturbadora com o macabro": isto é da orelha e tampouco é bem assim. São contos sobre vidas de pessoas "normais" enfrentadas a situações pouco comuns, nem sequer estranhas, com desfechos longe do macabro ou do perturbador. A não ser que se considere perturbador o que há de mais egoísta e ruim nos seres humanos. Mas o que há de bom e generoso, e o que há entre esses extremos, também se encontra aqui.

Lembro de cada um dos contos e de sua maravilhosa diversidade. Quase nenhum se passa no mesmo lugar do que outro ou tem personagens ou conflitos parecidos. Um se passa em Londres, outro no interior dos Estados Unidos, outro em Roma, dois ou três em Nova York, mas em bairros de classes sociais diferentes. Temos uma narrativa do mar (como eu gosto!): um barco pesqueiro que navega ao longo da costa de Long Island encontra uma nadadora desfalecida; mas não é um fenômeno estranho, o narrador conta que a jovem se chateou com umas amigas na praia, fez uma aposta e nadou longe demais; os marinheiros a recolhem,... Outro conto narra um sequestro realizado por uns malandros amadores meio tarados. Outro poderia estar num filme de Woody Allen: casais arrogantes e metidos fazem a vida impossível a um amigo solteiro, no East Side de Nova York. Outro é o luto de um menino pela irmã morta; outro, a volta de um homem de mediana idade à cidadezinha onde nasceu e cresceu e onde o pai acaba de falecer; outro, que se passa no Bronx, conta a história de um adolescente que toca num grupo de rock e é renegado pelo pai, que decide deixar de sustentá-lo. Em meu conto preferido, talvez o mais "misterioso", uma mulher recolhe uma cesta de vime na praia, estragada pelo mar; faz um trabalho perfeito de cestaria, conserta-a com uma habilidade que ela não tinha consciência de possuir, e isso a leva a pensar numa ancestralidade viva em algumas pessoas. "A casa das sombras" (uma casa parecida à da capa), conto que encerra o livro, pode ser lido como uma paródia das próprias histórias de mistério ou como reflexão sobre a invenção do mistério como necessidade vital. O estilo é o único que os contos compartilham: direto, claro, conciso, nada enfeitado, com personagens verossímeis e tratados com ternura, com descrições realistas (quando precisas) e diálogos vivos. E com humor.

PS: Semanas atrás, disse à Marinella que não entendia que os escritores que dão aulas de escrita criativa não dessem a ler aos alunos estes contos. Ela me disse que o Charles Kiefer os citou recentemente.


Friday, September 07, 2012

Nêmesis, de Philip Roth

Quando li em algum lugar que o último livro de Philip Roth era sobre uma epidemia de poliomielite que, partindo de Newark, acabava com todo o mundo em Nova Jersey, incluindo todos os garotos de um summer camp, pensei iiih, esse não vou ler: já sei como começa, já sei como termina e, pior ainda, vai ser uma parábola (o que deu no Philip Roth?). Pensei demais. O romance (que finalmente li por recomendação do Leo, obrigado, um abraço :) não é uma parábola, nem é só sobre a epidemia (como La peste, de Camus, em que está inspirado, também não era). Roth conta, de maneira bem específica, como sempre, uma história concreta: a da epidemia como é vivida primeiro no pátio de uma escola em férias, onde garotos se reúnem cada dia para jogar beisebol, num bairro judeu e pobre de Newark, e depois numa colônia de verão nas montanhas, para onde conseguem escapar os garotos de famílias de classe média. Roth estabelece vínculos com outras duas grandes tragédias, a Segunda Guerra (o romance se passa em 1944) e, de maneira menos evidente, o extermínio dos índios norte-americanos, mas o foco está sempre na história local. E essa - isto é o que torna o livro fantástico para mim - é a história de um homem, mais uma personagem inesquecível na obra de Roth: o Sr. Cantor (acho que deveriam ter mudado o nome dele, Cantor em português não dá, demorei a me acostumar, o cara não canta), um jovem de 23 anos, o encarregado de cuidar e ensinar esportes aos garotos no pátio de Newark e na colônia de Indian Hills. Ele é o que mais importa neste livro, e o mais maravilhoso. À sua personalidade é dedicado o terceiro e último capítulo (para ler e reler); e, antes, é no seu sentido do dever, nas suas dúvidas (a maior, religiosa: Deus é um grande filho da puta?), seus insuportáveis dilemas e suas escolhas, no campo de sua moral, em definitiva, onde - não sei dizer em português - se corta el bacalao. Quem leu o romance não vai esquecer Bucky Cantor: "ele era para todos nós a autoridade mais reverenciada e mais exemplar que conhecíamos, um jovem com convicções, simpático, cortês, justo, zeloso, estável, gentil, vigoroso, muscular - ao mesmo tempo líder e companheiro" (p. 191); "entretanto, não há ninguém menos passível de ser salvo do que um sujeito bom destroçado" (p. 190).




PS nada a ver: Hoy es 7 de septiembre, día de recordar a Mecano. Acabo de pasar una hora en YouTube escuchando viejas canciones. Segunda mitad de los ochenta, yo era un adolescente. Qué recuerdos, cómo pasa el tiempo.

Saturday, June 16, 2012

Bloomsday

Hoje, no caderno cultural (sigh) da Zero Hora, o Ulysses, de Joyce, é chamado de "o melhor romance da história". Só para quem não leu Don Quijote. Mais adiante, o jornalista se controla é o chama de "o melhor romance do século XX". Só para quem não leu Proust.

Falta uma coisa importante ao Ulysses: vida.

Literature is made of language. But it is by no means just made of language.

Thursday, May 31, 2012

L'allocution de Baudot, au livre d'Emmanuel Carrère

Estou marcando muitos trechos do romance, Outras vidas que não a minha, de Emmanuel Carrère, que leio aos trancos e barrancos. No fim vai merecer uns quatro coraçõezinhos, e no início quase fui trocá-lo na loja (até fui; por sorte, sem a nota fiscal). Em meu "deve", a impaciência; em meu "haver" uma estranha intuição para encontrar o livro adequado no momento adequado.

Hoje quero postar um trecho sobre a justiça, que adorei. E comentar, também, que poderia ler-se nas escolas o capítulo sobre as financeiras, agências ou estabelecimentos de crédito fácil (têm vários nomes) e sobre as audiências de inadimplência (p. 113 a 133). Nem todo o mundo sabe - e é melhor a leitura de um romance do que a das páginas de um jornal para entendê-lo - como essas empresas funcionam, e elas formam parte do tripé que provocou a crise, junto com os bancos de investimento e as imobiliárias.

Mas o que eu quero compartilhar é o seguinte: fazer justiça não é aplicar a lei, OK?

"Étienne, a essa crítica, respondia como Florès: não faço senão aplicar a lei. Aplicava-a, com efeito, mas à sua maneira, e lembrando-se de um texto que o impressionara na ENM, a alocução de Baudot. Esse Baudot, um dos inspiradores nos anos setenta do Sindicato da Magistratura, fora punido pelo ministro da Justiça, na época Jean Lecanuet, por ter feito este discurso para jovens juízes: 'Sejam parciais. Para manter o equilíbrio entre o forte e o fraco, entre o rico e o pobre que não pesam o mesmo peso, façam a balança pender mais para um dos lados. Mostrem uma predisposição pela mulher contra o homem, pelo devedor contra o credor, pelo operário contra o patrão, pelo escorchado contra a companhia de seguros do escorchador, pelo ladrão contra a polícia, pelo réu contra a justiça. A lei é interpretável, ela lhes dirá o que quiserem que ela diga. Entre o ladrão e a vítima do roubo, não hesitem em punir a vítima'."


... Encontrei agora, procurando informação sobre "esse Baudot", a alocução em vídeo. Essa alocução ou discurso ou arenga virou "La profession de foi du syndicate de la magistrature" na França. Baudot diz mais do que no trecho citado por Carrère e o que diz é igualmente importante.

Thursday, May 24, 2012

Situações raras

Do romance Outras vidas que não a minha, de Emmanuel Carrère, que estou lendo.

"É uma situação bem rara alguém ver-se dizendo não apenas o que viveu, mas quem é, o que faz com que ele seja ele e nenhum outro, a alguém que não conhece. Isso acontece nos primeiros momentos de um encontro amoroso e de um tratamento psicanalítico, isso acontecia agora."

É. Uma situação rara, difícil. Angustiante, meio paralisante, até; em função da autoconfiança que esse alguém tem no momento e de maneira diretamente proporcional ao desejo que ele sente pelo outro, no caso do encontro amoroso.

Thursday, March 08, 2012

Freedom, de Jonathan Franzen. Crítica de Uri Scissorhands

Recebi do Uri uma crítica de Freedom, que ele acabou de ler. Vou postá-la a seguir, traduzida (assim vou recuperando meu português) e editada, porque ele se enrola demais. (Sim, irmão: tu terias gostado de um editor melhor para esse romance, de alguém sem medo de usar a tesoura, e ao mesmo tempo não te dás conta de como tu te enrolas; isto, em espanhol, é "ver la paja en el ojo ajeno y no la viga en el propio".) (Eu fiz uma mini resenha do romance em outubro de 2010; não me pareceu que ao livro lhe sobrasse ou faltasse nada, nem páginas, nem personagens, me encantaram todos eles; achei dez. Mas o Uri toca em pontos importantes em que eu, tão encantado, nem reparei.) O texto a seguir, então é dele. Eu faço comentários entre colchetes.

Finalmente, terminei de ler Freedom, levei dois meses para ler esse tijolão. E para não perder a tradição vou escrever uma breve crítica. Primeiro, direi que o livro é bom, senão nem louco teria dedicado tanto tempo a ler tudo isso. De fato, diria que tem momentos brilhantes, alguns até mais brilhantes do que qualquer coisa que eu tenha lido recentemente (sobretudo no início e nas partes autobiográficas da Patty), mas também direi que, para mim, é longo demais e tem trechos que algum editor bondoso poderia ter cortado ou eliminado sem nenhum prejuízo. O livro é um grande retrato não só social, senão vital/individual das mudanças que uma pessoa pode experimentar ao longo da vida. Acredito que é um dos livros que melhor retratam as evoluções pessoais, essas mudanças que as pessoas vivem e que fazem com que passem de querer ser tudo o contrário de seus pais a terminar entendendo eles, além de muitas outras: sonhos quebrados, idealismos jogados no lixo, situações inesperadas que deixam a gente de cabeça para baixo, coisas que a gente faz e nunca teria acreditado ser capaz de fazer, etc. O melhor é que o romance não só ensina isso: faz com que se entenda, às vezes até com que se sinta, o que é realmente muito bom. Provavelmente, isto é assim porque o romance tem mais de autobiografia do que é reconhecido. As partes autobiográficas são de uma mulher, mas acredito que nelas temos muito do amigo Franzen e de sua vida. Nesse sentido, entendo que o livro tenha se destacado como um dos grandes romances dos últimos anos, porque não me lembro de nenhum outro tão profundo e exaustivo na recriação dessas mudanças (da adolescência da Patty até seus cinquenta e tantos anos, mais ou menos). O problema, o único problema que para mim o livro tem, como digo, é que, se bem é ótimo por tudo isso, seria ainda melhor se o leitor tivesse sido poupado de algumas partes, como essas histórias secundárias dos tios e das tias que, sobretudo no final, aparecem sem ter tido nenhum papel importante na vida dos protagonistas e não contribuem com nada de especial (pior: por momentos aproximam o romance de uma telenovela). Os protagonistas são a Patty (sobretudo ela) e o Walter Berglund, e entendo o papel que têm seus respectivos pais, os filhos e os amigos/amantes. Mas, sinceramente, a família longínqua não somente não aporta nada quanto me importa uma merda.

[Eu, já disse, fiquei empolgado com as vidas de todas as personagens, uma a uma, por serem complexas, interessantes e "reais". Talvez esse foi meu erro e a leitura do Uri foi mais inteligente. Escapou-me algo que agora, lendo sua crítica, entendo como essencial. A liberdade do título, isto é claro, é um conceito negativo, ou usado com ironia, e Franzen é ousado ao tratá-la assim, por ser nos Estados Unidos ("the land of the free") o que há de mais venerado (junto com o dinheiro). Mas as personagens não estão perdidas em suas vidas, à deriva, por serem livres demais, terem excessivas opções entre as quais escolher - ou não só (esse foi um preconceito meu, devido a algo que Franzen disse em alguma entrevista). Elas não são livres devido a certas inter-relações não positivas com pessoas emocionalmente próximas, amadas ou odiadas, ou amadas e odiadas ao mesmo tempo. Simplificando muito: Joey é quem é porque seus pais são quem são (ele tenta ser o oposto deles); Walter parece um homem bem-sucedido, mas no fundo inveja Richard, o ex músico de sucesso reconvertido em construtor de decks; Patty não consegue não se sentir atraída por Richard, um dos melhores amigos de Walter; etc. (btw, Uri: tem mais de Franzen em Walter). Grandes afetos e desafetos vão definindo vidas e as fazem descarrilar - sem importar que algumas das personagens que se influenciam de tal maneira não se encontrem num mesmo espaço por muitos capítulos (esse é um dos méritos de Franzen).]

[Numa palestra sobre o romance à que assisti com a Marinella, o palestrante, não lembro o nome, disse que o maior defeito do romance era a voz de Patty (exatamente aquilo que meu irmão, com bom critério, mais gostou, e que Franzen demorou, segundo disse, mais de sete anos em encontrar). Patty rejeitou o mundo acadêmico e de envolvimento político dos pais, liberais cultos da costa leste, dedicou-se ao basquete desde o colégio e quis casar e ser mãe tão cedo quanto possível; e, portanto, disse o teórico e palestrante (haja paciência para os grandes escritores), "não poderia falar e escrever tão bem, sua voz soa falsa". Lembro que eu, chocado, falei na hora (às vezes preciso superar minha timidez e falar) que Patty odiava seus pais, rebelava-se contra tudo o que eles significavam e o que para eles era importante, mas, por esse movimento de rebeldia ser consciente, seguia falando como a liberal democrata e culta que era e que não poderia nunca deixar de ser.]

Tu vai me dizer, "muito bem, bro", muito bonito, mas aonde tu queres chegar com essa conversa toda? Como tu sabes, não sou homem de palavras gratuitas e faço tudo com uma intenção. E essa não é outra que a de insistir, mais uma vez, em que desenhes um esquema, mesmo que seja mental, do teu romance, para evitar que esse tipo de coisas aconteça. Mesmo que o amigo Franzen escreva bem, houve momentos em que estive tentado de abandonar Freedom por achar que ele estava se enrolando e me enrolando, e se não o fiz foi em parte porque ele recuperava os temas principais antes que eu cansasse e em parte porque, devido às boas críticas, eu lhe dava mais crédito do habitual. Mas isso não sempre será assim. É um pouco o que acontece com alguns diretores de cinema, que, porque sabem filmar, fazem filmes longos demais que acabam virando uma bosta. Por sorte, no cinema existe a figura do montador (nunca suficientemente valorizada), que pega e dá cabo de tudo o que sobra (quando lhe é permitido) e o manda direto para os extras do DVD. O que sobra, tu já sabes, é aquilo que, se eliminado, não muda NADA da obra. Infelizmente, não tenho certeza de se essa figura existe na literatura: é o editor?, deveria ser? [Existia e era o editor, nos tempos dourados da edição literária: o mesmo editor que, hoje, ou já faz muitos anos, nem sequer lê o que publica.] Por isso insisto sempre no mesmo, na importância de ter claro aonde se vai e o que se explica, e de não ficar perdido por ali. Como ontem acabei de ler este romance pensando que se eu tivesse sido o editor teria lhe amputado 150 páginas, e assim não só o teria deixado melhor e feito com que menos pessoas o largassem pela metade, como teria salvado a vida de algumas árvores e, com eles, de alguns desses pássaros cantores tão caros a Walter, pois aproveitei para tocar no assunto. [Obrigado irmão. Por enquanto, tu sabes, feliz ou infelizmente não tenho muito que cortar nesse romance meu. Adoraria ter um baita manuscrito de 600 páginas e umas tesouras, mas não escrevo assim.] [Vai ler O rei pálido. Wallace se enrola pelo prazer do leitor.]

Saturday, February 25, 2012

Adiós a la universidad: el eclipse de las humanidades, de Jordi Llovet

Pela primeira vez, vou dar estrelinhas (coraçõezinhos, cinco!) para um livro que ainda não li (a partir de uma crítica sui generis que o Sérgio fez). Dei-o de presente à minha irmã, no aniversário, e ela... leu! :) Leu e achou extraordinário. Extraordinário é mesmo que minha irmã leia um livro que ganha de mim, ou dos nossos pais: ela está sempre lendo livros que nem estão nas livrarias tradicionais, livros (não sei se ela usa essa expressão) de fora do sistema; panfletos, digo-lhe eu, brincando. Eu imaginei que o livro seria bom, pelo autor, pelo assunto, pelas frases na faixa da capa: "En un país normal, este libro provocaría un terremoto" (Xavier Antich), "Es una enjundiosa reflexión sobre la cultura y la educación superior de hoy. Su anecdotario, lleno de humor y perspicacia, es una auténtica delicia" (Fernando Savater). Jordi Llovet foi catedrático de Estética, de Crítica literária, de Teoria da literatura e de Literatura comparada, sempre na Universidade de Barcelona (UB); eu, da UPF (formado em Humanidades, ai!), não o conheci, conheço-o indiretamente, pelas recomendações de clássicos da literatura que ele faz cada quinta-feira no Quadern, caderno em catalão do El País. Ele é um dos maiores especialistas espanhóis em literatura clássica e catalã, além de tradutor ao catalão de Hölderlin, Kafka, Rilke, Musil, Thomas Mann, Flaubert, Baudelaire, etc. Mas deixou de ser professor.

Na contracapa do livro, explica-se o porque do título: em 2008, ele aceitou um plano de pré-aposentadoria pensado pelos chefões da UB, que ele não teria aceito "si las circunstancias de la vida académica que se explican en el libro no le hubieran invitado a tomar esa decisión".

Mais, da contracapa: "Durante todos estos años el autor ha vivido experiencias y momentos de una gran belleza, de aprovechamiento y de mucha dignidad, pero también ha vivido otras que caen de lleno en el malestar y la consternación, si no en el horror. El autor intenta que todas y cada una de las situaciones narradas vayan acompañadas de una reflexión pedagógica, política, pero también moral, para hacer de este libro algo útil para las generaciones presentes de estudiantes, profesores y directores de enseñanza secundaria y de las universidades de Cataluña y de toda España, y también para las generaciones de estudiantes de Humanidades -que el autor ya comienza a llorar- que vendrán". Pior: "En El eclipse de las humanidades se describe el sobrecogedor panorama del hundimiento de la cultura en España".

Vendo a empolgação de minha irmã com a leitura, quis comprar o livro para mim. Não o fiz. Em vez disso, comprei-o para o Sérgio, que, além de ator, é professor na Faculdade de Educação da UFRGS e se interessa muito por tudo aquilo relacionado com as formas, os métodos de e a qualidade do ensino. E agora ele não quer me emprestá-lo!!! Eu lhe disse que, se é tão bom, poderia doar o livro à biblioteca da FACED, mas ele, muito possessivo, respondeu: "Por favor! No doy este libro a ninguna biblioteca!, lo estimo demasiado como mío!". (Tudo bem, mas eu acho, Sérgio, que ele deveria estar nas bibliotecas das faculdades de Letras e Ciências sociais...) Não quer doar o livro à biblioteca, nem me emprestá-lo ("tu iria te deprimir"), e ao mesmo tempo me provoca dizendo que dorme e acorda lendo o Llovet.

Bom, depois deste preâmbulo, vai aqui sua crítica, a que fez com que eu não duvidasse na hora de dar ao livro todos os corações:

"Por fin miro el reloj: son las cinco. Agarro lo que no puedo dejar: el eclipse de las humanidades. Parte de mi desgarro se traduce con tanta precisión y con tan buen humor, a parte de la envidiosa vida y experiencia del autor, que no puedo dejar de leer. Como dijo algun Foix Moix o Comas Ribas, en un país serio ese libro sería un terremoto. Y me sirve. Me terremotea las ideas y las sensaciones. Agradecemos a Rosa, tu hermana, la lectura previa y a ti, por la elección. No podría haber llegado en mejor 'enhorabuena' este libro. Son las 07:19, tengo ganas de tomar un café". Em outro e-mail, ele escreve: "Olha que sincronia com o livro do Llovet: 'ADUFRGS abre o debate sobre o futuro da UFRGS: A ADUFRGS-Sindical, representante dos professores - responsáveis pelas atividades e fins da Universidade (ensino, pesquisa e extensão) e detentores de experiência e conhecimento para definir os objetivos da instituição e escolher seus dirigentes - conclama os filiados a uma profunda reflexão, tendo por base o nosso passado e o que queremos para o futuro da UFRGS, e a uma participação ativa nas discussões e elaboração de programas sobre o que queremos dos próximos gestores desta importante Instituição'". Por último, ele diz que talvez assista, como ouvinte (talvez eu também) à disciplina "Cinema, Literatura e Educação, é tudo verdade?", da professora Rosa Maria Bueno Fischer, "um primor de intelectual"... "tudo por culpa do Llovet, que não para de me incomodar: anda, sal de tu inercia, vete a estudiar".





PS: Este post é também sobre política (daí a etiqueta "Sobre política"). São os políticos os que estão acabando com as Humanidades: os que dirigem o país (no caso, Catalunya e España) e os que dirigem as universidades. Ou então é o mercado, que acredita não precisar de pessoas com esse tipo de formação. Mas são os polícos os que poderiam/deveriam resistir a essas "forças".

Friday, January 20, 2012

El rey pálido, de David Foster Wallace

Sobre The Pale King não vou tentar fazer nenhuma crítica, não seria capaz, só escreveria bobagens. Já escrevi muitos pareceres de livros, e lembro que os dos melhores eram sempre os mais difíceis. É muito difícil "to have informed, intelligent reasons for liking or disliking a piece of fiction, and to write - clearly, persuasively, and above all interestingly - about stuff you've read" (a citação é do próprio Wallace, está nos aims da disciplina que ele dava na universidade do Texas). DFW era um gênio, seu romance é uma obra mestra, e agora estou naquela situação de não saber o que mais ler, não encontrar nada que, em comparação, não pareça escrito por um aprendiz. Para o editor Jorge Herralde, "un escritor de culto es un escritor con una voz propia, que sorprende, exige y excita al lector": DFW tinha e conseguia tudo isso. (Obviedade: todo o mundo tem voz própria, todo escritor também. Mas não toda voz própria, ou visão do mundo, é igualmente fascinante, nem todo escritor com voz própria tem o gênio e o atrevimento para fazer dela sua obra.) O que DFW faz em The Pale King, algumas das razões inteligentes e fundamentadas para apreciar o livro, está nestas críticas que recolhi num outro post, bem escritas por bons críticos literários norte-americanos. A crítica espanhola e, pior, os escritores espanhóis ignoraram o livro, que não apareceu nas listas com que os jornais encheram suas páginas de cultura antes do fim do ano. Será que eles não leem em inglês? Pode ser, que coisa patética. Mas a magnífica tradução de Javier Calvo ao espanhol está nas livrarias há três meses. Eu li essa tradução, desisti do inglês logo no primeiro capítulo, sobretudo pela quantidade de termos sobre fiscalidade. O livro é em parte sobre o tédio, mas a escolha de uma agência tributária como cenário principal não é arbitrária, uma personagem, lembro, fala sobre como é possível definir a moral de um indivíduo a partir de sua postura diante do fato de ter de pagar impostos. Não é um livro só sobre o tédio, mas é um livro triste (com trechos muito engraçados). É um livro moral, é um livro sobre a condição humana - estas são características de todas as obras mestras e um exemplo das bobagens que eu digo que não quero escrever. Mais um clichê: a leitura requer certo esforço (alguns capítulos eu tive de ler duas vezes para entendê-los bem, mesmo em espanhol), mas este é totalmente recompensado. E finalmente uma dica para quem não queira se dar ao trabalho de ler o livro inteiro: leiam e releiam, não deixem passar a oportunidade de ler algo tão brilhante, tão estimulante, ETC. como o capítulo 46. São 60 páginas que podem ser lidas como uma novela. Trata-se do diálogo intenso (o adjetivo é do texto e é o mais apropriado), num happy hour, numa sexta-feira depois do trabalho, entre Meredith Rand, a mulher mais gostosa da agência, e Shane Drinion, o agente mais alienado. Sobre o passado dela. (Muitos capítulos narram fatos do passado das personagens que acabam se encontrando na agência muitos anos depois.)

Tuesday, January 10, 2012

Terminando de ler o romance póstumo de David Wallace, The Pale King

Capítulo 37 (inteiro)

'Certainly appears to be a nice restaurant.'
'Looks pretty nice.'
'I myself have never been here before. I'd heard good things about it, though, from some of the fellows in Administration. I've been anxious to try it.'
'...'
'And here we are.'
(Removing chewing gum and wrapping it in Kleenex removed from handbag.) 'Uh-huh.'
'...'
'...'
(Makes minute adjustments to placement of silverware.) '...'
'...'
'Do you suppose it's so much easier to make conversation with someone you already know well than with someone you don't know at all primarily because of all the previously exchanged information and shared experiences between two people who know each other well, or because maybe it's only with people we already know well and know know us well that we don't go through the awkward mental process of subjecting everything we think of saying or bringing up as a topic of light conversation to a self-conscious critical analysis and evaluation that manages to make anything we think of proposing to say to the other person seem dull or stupid or banal or on the other hand maybe overly intimate or tension-producing?'
'...'
'...'
'What did you say your name was again?'
'Russell. Russell or sometimes "Russ," though to be honest I have a marked preference for Russell. Nothing against the name Russ; I just never quite cottoned to it.'
'Do you got any aspirin with you, Russell?'

Friday, December 30, 2011

2012

De Los enamoramientos, último romance de Javier Marías, última leitura de 2011:

"Él sabía reír, lo hacía con fuerza pero con sinceridad y simpatía, nunca como si adulara ni en actitud aquiescente sino como si respondiera siempre a cosas que le hacían verdadera gracia y fueran muchas las que se la hicieran, un hombre generoso, dispuesto a percibir lo cómico de las situaciones y a aplaudir las bromas, por lo menos las verbales. Quizá era su mujer quien se la hacía, en conjunto, hay personas que nos hacen reír aunque no se lo propongan, lo logran sobre todo porque nos dan contento con su presencia y así nos basta para soltar la risa con muy poco, sólo con verlas y estar en su compañía y oírlas, aunque no estén diciendo nada del otro mundo o incluso empalmen tonterías y guasas deliberadamente, que sin embargo nos caen todas en gracia. El uno para el otro parecían ser de esas personas; y aunque se los veía casados, nunca sorprendí en ellos un gesto edulcorado ni impostado, ni tan siquiera estudiado, como los de algunas parejas que llevan años conviviendo y tienen a gala exhibir lo enamoradas que siguen, como un mérito que las revaloriza o un adorno que las embellece. Era más bien como si quisieran caerse simpáticos y agradarse antes de un posible cortejo; o como si se tuvieran tanto aprecio y querencia desde antes de su matrimonio, o aun de su emparejamiento, que en cualquier circunstancia se habrían elegido espontáneamente  no por deber conyugal, ni por comodidad, ni por hábito, ni por lealtad siquiera  como compañero o acompañante, amigo, interlocutor o cómplice, en la seguridad de que, fuera lo que fuese lo que aconteciera o se diese, o lo que hubiera que contar o escuchar, siempre sería menos interesante o divertido con un tercero. Sin ella en el caso de él, sin él en el caso de ella. Había camaradería, y sobre todo convencimiento."


Meus desejos de um 2012 cheio de amor. (Esse tipo ou qualquer outro. Mas esse vale por mil.)

Saturday, November 26, 2011

Madame Bovary, de Gustave Flaubert

Semanas atrás li Madame Bovary. Precisava ler em francês porque tinha uma prova e fazia muito tempo que não usava essa língua (depois, feita a prova, vi que não teria precisado, a prova foi uma bobagem, mas tudo bem), e os outros dois livros que comecei a ler antes de Flaubert, por um motivo ou outro, não me empolgaram (romances recentes: Le dictateur et le hamac, de Daniel Pennac, e Volkswagen Blues, de Jacques Poulin, presentes de duas amigas muito queridas). Minha história com Flaubert vem de longe, de quando na faculdade li Flaubert's Parrot, de Julian Barnes (li em espanhol, na tradução de Anagrama, El loro de Flaubert). Foi o melhor livro que li na disciplina de Literatura Contemporânea, sem dúvida o melhor livro "novo" (posterior a 1980) que a gente leu lá - não só para mim, vários colegas começamos a devorar outros livros de Julian Barnes, Before She Met Me, A History of the World in 10½ Chapters,... Enfim: graças a El loro de Flaubert, que trata da vida e as opiniões do escritor, da correspondência com Louise Colet, de suas filias e fobias, da redação, mais do que de Madame Bovary, do conto "Un cœur simple", achei que conhecia bem o autor, e inclusive escrevi um ensaio sobre Flaubert e a Normandia. Mas, tirando Trois contes, o fato é que eu não tinha lido nada, e as duas vezes que peguei Madame Bovary o abandonei, entediado, depois de 20 ou 30 páginas. Desta vez (semanas atrás) estava disposto a superar esse tédio inicial e seguir em frente, e a surpresa foi ficar empolgado desde o começo. Para mim é um romance mais moderno que Anna Karénina, por exemplo, que também li não faz muito e trata de temas parecidos, talvez porque os dilemas morais de Anna são (pareceram-me) de um tempo passado, não fazem muito sentido hoje, enquanto o que leva Emma Bovary à infelicidade é bem atual. (Só não é atual a falta de cenas de sexo: não há sexo em Madame Bovary, é tudo elipse, uma pena.) Não vou tentar fazer uma crítica, só copio uns trechos significativos, dos que gostei especialmente.


Sobre o matrimônio:

Un jour qu'en prévision de son depart elle faisait des rangements dans un tiroir, elle se piqua les doigts à quelque chose. C'était un fil de fer de son bouquet de mariage. Les boutons d'oranger étaient jaunes de poussière, et les rubans de satin, à liséré d'argent, s'effiloquaient par le bord. Elle le jeta dans le feu. Il s'enflamma plus vite qu'une paille sèche. Puis ce fut comme un buisson rouge sur les cendres, et qui se rongeait lentement. Elle le regarda brûler. Les petites baies de carton éclataient, les fils d'archal se tordaient, le galon se fondait; et les corolles de papier, racornies, se balançant le long de la plaque comme des papillons noires, enfin s'envolèrent par la cheminée.


Sobre o amor:

Quant à Emma, elle ne s'interrogea point pour savoir si elle l'aimait. L'amour, croyait-elle, devait arriver tout à coup, avec de grands éclats et des fulgurations, - ouragan des cieux qui tombe sur la vie, bouleverse, arrache les volontés comme des feuilles et emporte à l'âbime le cœur entier. Elle ne savait pas que, sur la terrasse des maisons, la pluie fait des lacs quand les gouttières sont bouchées, et elle fût ainsi demeurée en sa sécurité, lorsqu'elle découvrit subitement une lézarde dans le mur.


Mais sobre o amor:

Mais, par ce renoncement, il la plaçait en des conditions extraordinaires. Elle se dégagea, pour lui, des qualités charnelles dont il n'avait rien à obtenir; et elle alla, dans son cœur, montant toujours et s'en détachant, à la manière magnifique d'une apothéose qui s'envole. C'était un de ces sentiments purs qui n'embarrassent pas l'exercice de la vie, que l'on cultive parce qu'ils sont rares, et dont la perte affligerait plus que la possession n'est réjouissante.


Sobre o fim do amor:

Le lendemain fut, pour Emma, une journée funèbre. Tout lui parut enveloppé par une atmosphère noire qui flottait confusément sur l'extérieur des choses, et le chagrin s'engouffrait dans son âme avec des hurlements doux, comme fait le vent d'hiver dans les châteaux abandonnés. C'était cette rêverie que l'on a sur ce qui ne reviendra plus, la lassitude qui vous prend après chaque fait accompli, cette douleur, enfin, que vous apportent l'interruption de tout mouvement accoutumé, la cessation brusque d'une vibration prolongée. [...] Cependant les flammes s'apaisèrent, soit que la provision d'elle-même s'épuisât, ou que l'entassement fût trop considérable. L'amour, peu à peu, s'éteignit par l'absence, le regret s'étouffa sous l'habitude; et cette lueur d'incendie qui empourprait son ciel pâle se couvrit de plus d'ombre et s'effaça par degrés.


Sobre a plenitude:

Jamais Mme Bovary ne fut aussi belle qu'à cette époque; elle avait cette indéfinissable beauté que résulte de la joie, de l'enthousiasme, du succès, et qui n'est que l'harmonie du tempérament avec les circonstances. Ses convoitises, ses chagrins, l'expérience du plaisir et ses illusions toujours jeunes, comme font aux fleurs le fumier, la pluie, les vents et le soleil, l'avaient par gradations développée, et elle s’épanouissait enfin dans la plénitude de sa nature.


Sobre a persistência do desejo (este trecho me emocionou: em 97 também usei os Jardins du Luxembourg para tentar esquecer alguém):

Souvent, lorsqu'il restait à lire dans sa chambre, ou bien assis le soir sous les tilleuls du Luxembourg, il laissait tomber son Code par terre, et le souvenir d'Emma lui revenait. Mais peu à peu ce sentiment s'affaiblit, et d'autres convoitises s'accumulèrent par-dessus; bien qu'il persistât cependant à travers elles; car Léon ne perdait pas toute espérance, et il y avait pour lui comme une promesse incertaine qui se balançait dans l'avenir, tel qu'un fruit d'or suspendu à quelque feuillage fantastique.


Sobre o pensar mal de quem amamos:

Elle le détestait maintenant. Ce manque de parole au rendez-vous lui semblait un outrage, et elle cherchait encore d'autres raisons pour s'en détacher: il était incapable d'héroïsme, faible, banal, plus mou qu'une femme, avare d'ailleurs et pusillanime.
Puis, se calmant, elle finit par découvrir qu'elle l'avait sans doute calomnié. Mais le dénigrement de ceux que nous aimons toujours nous en détache quelque peu. Il ne faut pas toucher aux idoles: la dorure en reste aux mains.


Sobre o desejo de absoluto:

N'importe! elle n'était pas heureuse, ne l'avait jamais été. D'où venait donc cette insuffisance de la vie, cette pourriture instantanée des choses ou elle s'appuyait?... Mais, s'il y avait quelque part un être fort et beau, une nature valeureuse, pleine à la fois d'exaltation et de raffinements, un cœur de poète sous une forme d'ange [...]. Oh! quelle impossibilité! Rien, d'ailleurs, ne valait la peine d'une recherche; tout mentait! Chaque sourire cachait un bâillement d'ennui, chaque joie une malédiction, tout plaisir son dégout, et les meilleurs baisers ne vous laissaient sur la lèvre qu'une irréalisable envie d'une volupté plus haute.


Sobre o adultério:

Ils se connaissaient trop pour avoir ces ébahissements de la possession qui en centuplent la joie. Elle était aussi dégoutée de lui qu'il était fatigué d'elle. Emma retrouvait dans l'adultère toutes les platitudes du mariage.




Sunday, September 25, 2011

The Missing Piece, by Shel Silverstein

I used to have a friend ("I used to" because we are no longer in touch) who once, in New York, where we first met, took me to a children's bookstore - Books of Wonder, it still exists. I don't know what I was looking for, but she started getting excited at the view of some books she was very familiar with, books she had grown up reading. And she kept finding them, and commented each and every one to me while putting them in my hands. One was Bridge to Terabithia, another was The Lion, the Witch and the Wardrobe, and then there was this very special one, The Missing Piece, that she adored. I bought them all, five or six books from my friend's childhood. Some years after, I gave the book as a present to my sister. This is a treasure I'm giving to you, I thought, or said (we were a little bit closer than now). And years after that, I sort of regretted not having kept it for myself. Over the time, I found translations of books by Silverstein (The Giving Tree, usually), but not, never, The Missing Piece, which I still don't have. So today I saw a beautiful movie, a love story - I guess it could be said - about missing pieces, and while looking for a song from the film I went over some drawings similar to those in the book. Then I remembered it and found it online. It's an American classic children's book - not especially happy.


Monday, August 22, 2011

Música de brinquedo em Porto Alegre (e O peixe)

Este fim de semana, a turnê do CD Música de Brinquedo, de Pato Fu, passou por Porto Alegre e, é claro, eu fui (ao último dos três shows, domingo à noite). O teatro do Bourbon Country lotou, cheio de fãs das antigas, dos novos e "do meio", daqueles que vem e vão (foi a Fernanda Takai quem perguntou à plateia); e, sobretudo, de crianças. Estas foram, eu acho, as que curtiram mais o show: muitas ficaram dançando nas cadeiras, outras dançaram no corredor ou foram parar entre o palco e a primeira fileira - crianças mesmo, de uns cinco ou seis anos e até menos. Eu não curti tanto. Adoro o CD, mas... Talvez foi que o teatro do Bourbon não me parece um bom lugar para shows (foi bom para o show do Ney Matogrosso, mas ele além de cantar faz teatro; foi ruim, tão arrumadinho, para o show do Tom Zé; aqui em Porto Alegre só gosto mesmo do espaço do Pepsi On Stage, mas, também, era um show do Fito Páez! :) Talvez percebi pouca empolgação na banda, que já está no final da turnê. Ou talvez o fato de substituir as crianças que cantam no CD, que imagino que a banda não pôde ou não quis levar pelo Brasil afora, por bonecos-monstros, de voz monstruosa, não foi um acerto. Enfim, não sei e tanto faz: não curti muito, mas curti, valeu a pena. A Fernanda estava com sua melhor voz (não tem voz como a dela) e o John Ulhoa esteve engraçado na apresentação das músicas. E o baterista deu show, foi o protagonista em duas ou três canções.

Filmei três delas: duas porque não estão no CD e uma porque eu estava perto demais do palco para não filmar (e tirei umas fotinhos). A primeira música é uma boa versão de "Simplicidade", do CD Toda cura para todo mal, de 2005. Só neste primeiro vídeo o som ficou bom. A segunda é o clássico "Sobre o tempo", de Gol de quem?, do ano 94. Neste vídeo não sei o que eu fiz, a imagem ficou vertical, tem que girar a cabeça 90º :p. Não gostei dessa versão, achei pobre, aqui os instrumentos de brinquedo não bastam. Mas vale a pena ver o vídeo para curtir o baterista tocando o João Bobo (nem sabia que essa espécie de pino de boliche inflável existia e tinha essa nome; não existe na Espanha, que eu saiba). E a terceira é "Love Me Tender" (do piorzinho ou mais prescindível do CD, sorry).








E as fotos:

























Fernanda Takai. Sempre linda. Sempre muito bem vestida, ou vestida num estilo que eu gosto, japanese-homely-(just a little bit) cool. (A Gabi me disse quem era seu estilista; esqueci o nome, prefiro acreditar que é ela mesma.)


Alguns instrumentos que a Fernanda tocou e a bateria de brinquedo ao fundo.


John Ulhoa falando com os bonecos-monstros (chatos).


Alguns dos (muitos) instrumentos que tocou o John.


PS: O melhor do fim de semana foi a apresentação do livro da Ana Santos. Foi um sucesso, mas não vou escrever nada aqui, ao menos por enquanto. Quero saber como ela se sentiu, como se sente. Li os três primeiros contos (os dois primeiros eu já conhecia) e fiquei maravilhado (de novo). O Sérgio me escreveu dizendo que O que faltava ao peixe está na gôndola de entrada da livraria Cultura, "entre blockbusters"... A Ana vai longe!


Monday, August 15, 2011

Faltam 5 dias! :)))

















Junto com o convite, a queridíssima Ana me enviou também estes versos da Adélia Prado:

Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar, e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.

Friday, August 12, 2011

Faltam 10 dias! :)))

(Faltam 9, na verdade; queria ter postado o cartaz ontem.)

























(Gosto demais da Ana e do que ela escreve, e o que eu poderia pôr, ou tentar pôr aqui em palavras não faria sentido, seria sempre pouco, curto, pequeno... A Ana é incrível, deixo só o cartaz.)

(Sempre juntos na aventura, Ana, desde "my mother is a fish".)

(Estou muito feliz.)

Sunday, June 26, 2011

Être et avoir (e Blue Valentine, e a Paris dos anos 20 de Woody Allen)

O Pedrito me enviou ontem os links para o documentário Être et avoir, "veja, veja, veja". Eu ainda não vi, vi, vi, mas confio muito no seu bom gosto e posto eles aqui, para quem quiser ver também. Em francês com legendas em português.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

Parte 6

Parte 7

Parte 8

Parte 9

Parte 10

Parte final


... E ontem eu assisti, com a Camila L., a Blue Valentine. É um filme muito bom, e a meu ver (não segundo a Camila), altamente desalentador. Os casais que, talvez enganados pelo título Namorados para sempre (horrível, se bem que o título original também não é aquela coisa), foram assisti-lo no dia dos namorados, devem ter saído com certo mal-estar, se não xingando diretamente o diretor. Enfim, recomendo, é um baita filme. (Eu não vou esquecer o episódio no motel, que é coisa de mestre, na arte e na vida.) Vai aqui o trailer, que não entrega nada (aliás, também é enganador, meio bobinho; o filme não é).




Falando em filmes - e em títulos. Eu ia esculachar Midnight in Paris, para implicar com meu irmão Uri e porque realmente não gostei. Mas, como o Sérgio e a Ângela gostaram (ou gostaram mais o menos), vou me abster. Só recomendo, para quem não o leu, A Moveable Feast. O preço é o mesmo que o do ingresso e o livro fica na memória para sempre. París era una fiesta, esse é o título em espanhol. E acho que é um dos casos raros em que a versão é melhor do que o título original. Para mim é assim, também, com a epígrafe do livro, do próprio Hemingway:

If you are lucky to have lived in Paris as a young man, then wherever you go for the rest of your life, it stays with you, for Paris is a moveable feast.

Si tienes la suerte de haber vivido en París cuando joven, luego París te acompañará, vayas adonde vayas, todo el resto de tu vida, ya que París es una fiesta que nos sigue.

Thursday, June 09, 2011

The Pale King, by David Foster Wallace

Inicialmente previsto para 2010, já está à venda, desde abril, The Pale King, o livro póstumo de David Foster Wallace, editado por Michael Pietsch, da Little Brown, a partir de 250 páginas datilografadas que Wallace deixou em cima da mesa de seu escritório antes de se suicidar e de pilhas e pilhas de cadernetas escritas à mão e vários disquetes - a versão final tem quase 600 páginas. Pietsch diz que mergulhou (achei isso bonito) "into folders and spiral-bound notebooks, including one with a Rugrats character on the cover and another called 'Cuddly Cuties,' with a photograph of kittens. Inside were pages and pages of notes and drafts in Wallace's tiny, spidery handwriting. A ledger contained some pasted-in notebook pages, several of them decorated with small smiley-face stickers, little signs of encouragement that the author had apparently awarded himself, impersonating a grammar-school teacher" (The New York Times).  

The Pale King tem como cenário principal uma agência tributária do meio oeste dos Estados Unidos e retrata uma América monótona e sem sentido, escrava do consumismo míope; uns cidadãos à beira de morrer de tédio e incapazes de se comunicar. Mesmo sendo sobre o tédio, alguns críticos acharam o romance engraçado ao extremo ("pants-pissingly hilarious"). E Michiko Kakutani (a "rainha dos críticos", do NYT) não vê contradição em que o livro seja, ao mesmo tempo, profundamente triste: "just as this lumpy but often stirring new novel emerges as a kind of bookend to Infinite Jest, so it demonstrates that being amused to death and bored to death are, in Wallace’s view, flip sides of the same coin". No próprio romance, Wallace escreve: "Dullness is associated with psychic pain because something that's dull or opaque fails to provide enough stimulation to distract people from some other, deeper type of pain that is always there".

Mais um trecho, sobre "o inferno": "He felt in a position to say he knew now that hell had nothing to do with fires or frozen troops. Lock a fellow in a windowless room to perform rote tasks just tricky enough to make him have to think, but still rote, tasks involving numbers that connected to nothing he’d ever see or care about, a stack of tasks that never went down, and nail a clock to the wall where he can see it, and just leave the man there to his mind’s own devices". E mais um, descritivo: "the flannel plains [and] the tobacco-brown river overhung with weeping trees and coins of sunlight, [an] arrow of starlings fired from the windbreak’s thatch, [a] sunflower, four more, one bowed, and horses in the distance standing rigid and still as toys. All nodding". 

Para Zadie Smith, Wallace foi o escritor mais talentoso de sua geração (da geração dela), um gênio. Para Jonathan Franzen, foi o amigo íntimo, o melhor parceiro, o autor da obra ao lado da qual ele avaliava a sua própria. (Franzen só conseguiu terminar Freedom quando Wallace se matou; a raiva o tirou do bloqueio em que esteve por cinco anos. Uma das personagens mais fascinantes de Freedom, Richard Katz, está inspirada no amigo.) Quem nunca leu Foster Wallace, pode se maravilhar com seus contos (Brief Interviews with Hideous Men; Breves entrevistas com homens hediondos, Cia. das Letras; meus preferidos são "Forever Overhead" e "The Depressed Person") ou seus "ensaios", que se leem como ficções (Consider the Lobster; Hablemos de langostas, em espanhol, Mondadori). Eu nunca me atrevi com o romance Infinite Jest (1.000 páginas; acho que já escrevi aqui que minha amiga Kris, norte-americana e boa leitora, não conseguiu terminá-lo, e portanto eu nem tentei), mas um exemplar de The Pale King já deve estar voando para Barcelona. Só vou poder lê-lo e comentar no Natal, então, deixo neste post os montes de elogios que encontrei na Amazon, em nota de rodapé, letra pequeninha e abundância, bem à la Wallace*.






*"One hell of a document and a valiant tribute to the late Wallace...Stretches of this are nothing short of sublime--the first two chapters are a real put-the-reader-on-notice charging bull blitz, and the David Foster Wallace sections...are tiny masterpieces of that whole self-aware po-mo thing of his that's so heavily imitated...often achingly funny...pants-pissingly hilarious...Yet, even in its incomplete state...the book is unmistakably a David Foster Wallace affair. You get the sense early on that he's trying to cram the whole world between two covers. As it turns out, that would actually be easier to than what he was up to here, because then you could gloss over the flyover country that this novel fully inhabits, finding, among the wigglers, the essence of our fundamental human struggles." (Publishers Weekly) "The final, beautiful act of an unwilling icon...one of the saddest, most lovely books I've ever read...Let's state this clearly: You should read THE PALE KING...You'll be [kept up at night] because D.F.W. writes sentences and sometimes whole pages that make you feel like you can't breathe...because again and again he invites you to consider some very heavy things...Through some function of his genius, he causes us to ask these questions of ourselves." (Benjamin Alsup, Esquire) "Deeply sad, deeply philosophical...breathtakingly brilliant...funny, maddening and elegiac...[David Foster Wallace's] most emotionally immediate work...It was in trying to capture the hectic, chaotic reality--and the nuanced, conflicted, ever-mutating thoughts of his characters--that Wallace's synesthetic prose waxed so prolix, his sentences unspooling into tangled skeins of words, replete with qualifying phrases and garrulous footnotes...because in almost everything Wallace wrote, including THE PALE KING, he aimed to use words to lasso and somehow subdue the staggering, multifarious, cacophonous predicament that is modern American life." (Michiko Kakutani, The New York Times) "The overture to Wallace's unfinished last novel is a rhapsodic evocation of the subtle vibrancy of the midwestern landscape, a flat, wind-scoured place of potentially numbing sameness that is, instead, rife with complex drama....feverishly encompassing, sharply comedic, and haunting...this is not a novel of defeat but, rather, of oddly heroic persistence.... electrifying in its portrayal of individuals seeking unlikely refuge in a vast, absurd bureaucracy. In the spirit of Borges, Gaddis, and Terry Gilliam's Brazil (1985), Wallace conducts a commanding and ingenious inquiry into monumental boredom, sorrow, the deception of appearances, and the redeeming if elusive truth that any endeavor, however tedious, however impossible, can become a conduit to enlightenment, or at least a way station in a world where 'everything is on fire, slow fire.'" (Donna Seaman, Booklist) "THE PALE KING represents Wallace's finest work as a novelist...Wallace made a career out of rushing in where other writers feared to tread or wouldn't bother treading. He had an outsize, hypertrophied talent...THE PALE KING is an attempt to stare directly into the blind spot and face what's there...His ability to render the fine finials and fractals and flourishes of a mind acting upon itself, from moment to moment, using only the blunt, numb instruments of language, has few if any equals in American literature..this we see him do at full extension." (Lev Grossman, TIME) "To read THE PALE KING is in part to feel how much Wallace had changed as a writer, compressed and deepened himself...It's easy to make the book sound heavy, but it's often very funny, and not politely funny, either...Contains what's sure to be some of the finest fiction of the year." (John Jeremiah Sullivan, GQ) "A thrilling read, replete with the author's humor, which is oftentimes bawdy and always bitingly smart...The notion that this book is 'unfinished' should not be given too much weight. The Pale King is, in many ways, quite complete: its core characters are fully drawn, each with a defining tic, trait, or backstory...Moreover, the book is far from incomplete in its handling of a host of themes, most of them the same major issues, applicable to all of us, with which Wallace also grappled in Infinite Jest: unconquerable boredom, the quest for satisfaction in work, the challenge of really knowing other people and the weight of sadness...The experience to be had from reading The Pale King feels far more weighty and affecting than a nicely wrapped story. Its reach is broad, and its characters stay with you." (Daniel Roberts, National Public Radio) "The four-word takeaway: You should read it!" (New York Magazine) "An astonishment, unfinished not in the way of splintery furniture but in the way of Kafka's Castle or the Cathedral of St. John the Divine...What's remarkable about The Pale King is its congruity with Wallace's earlier ambitions... The Pale King treats its central subject--boredom itself--not as a texture (as in Fernando Pessoa), or a symptom (as in Thomas Mann), or an attitude (as in Bret Easton Ellis), but as the leading edge of truths we're desperate to avoid. It is the mirror beneath entertainment's smiley mask, and The Pale King aims to do for it what Moby-Dick did for the whale...Watching [Foster Wallace] loosed one last time upon the fields of language, we're apt to feel the way he felt at the end of his celebrated essay on Federer at Wimbledon: called to attention, called out of ourselves." (Garth Risk Hallberg, New York Magazine) "Wallace's gift for language, especially argot of all sorts, his magical handling of masses of detail...[these] talents are on display again in The Pale King." (Jeffrey Burke, Bloomberg) "An incomplete, complex, confounding, brilliant novel...Reading THE PALE KING is strangely intimate...it also comes with a note of grace." (Sam Anderson, New York Times Magazine) "The most anticipated posthumous American novel of the last century...[Wallace was] America's most-gifted writer...American literature will rarely, if ever, give us another mind like Wallace's...ferociously written...richly imagined...a deep panoply of lives and the post-modern awareness of how this all was constructed, both the work and the vortex of current life." (John Freeman, Boston Globe) "THE PALE KING represents Wallace's effort, through humor, digression and old-fashioned character study, to represent IRS agents...as not merely souled, but complexly so. He succeeds, profoundly, and the rest of the book's intellectual content is gravy. Yes, parts are difficult, but 'boring' never comes into it. And it's very, very funny." (Sam Thielman, Newsday) "It may be unfinished, but the reviews-cum-retrospectives all soundly agree: It's still a book to be read." (The Miami Herald) "A fully imagined, often exquisitely fleshed-out novel about a dreary Midwestern tax-return processing center that he has caused to swarm with life...a series of bravura literary performances--soliloquies; dialogues; video interview fragments; short stories with the sweep and feel of novellas...This is what 360-degree storytelling looks like, and if it doesn't come to a climax or end, exactly, that may not be a defect." (Judith Shulevitz, Slate) "It could hardly be more engaging. The Pale King is by turns funny, shrewd, suspenseful, piercing, smart, terrifying and rousing." (Laura Miller, Salon) "Strange, entertaining, not-at-all boring...Wallace transforms this driest of settings into a vivid alternate IRS universe, full of jargon and lore and elaborately behatted characters, many of them with weird afflictions and/or puzzling supernatural abilities...hilarious...brilliant and bizarre, another dispatch from Wallace's...endlessly fascinating brain." (Rob Brunner, Entertainment Weekly) "Exhilarating." (Hillel Italie, Associated Press) "Heroic and humbling...sad, breathtakingly rigorous and searching, ultimately hysterically funny." (Matt Feeney, Slate)

Wednesday, May 18, 2011

O caderno rosa de Lori Lamby, de Hilda Hilst

Se pretende ser literatura: ruim. Se pretende ser erótico (ou pornográfico?): ruim. Se pretende chocar: ruim também (li as últimas 20 páginas em diagonal). A voz da criança de 8 anos (Lori, a narradora) está bem recriada, mas isso não é difícil, esse tipo de voz narrativa infantil até virou clichê. (Lembro de uma personagem da mesma idade, no romance The Sorrows of an American, de Siri Hustvedt, que fala e ganha vida de um modo mais original, além de seduzir e perturbar sem mostrar sua boceta.) Enfim, por tudo junto: ridículo.*

*Outra possibilidade é que o livro seja "a bandalheira que o Lalau quer". Lalau é o editor do pai de Lori, que está escrevendo um romance. O pai chama esse editor de f.d.p. que só quer um texto para agradar aos "leitores ANARFABETOS" e assim vender muito. Mas isso mais parece uma desculpa do que uma motivação real da escritora Hilda Hilst. 




PS: Com respeito ao meu projeto de doutorado, ler esse tipo de livros me deprime. Me fazem lembrar de Edna O'Brien, que disse de Chico Buarque que não era um escritor. Ou da crítica de arte que relativizou o valor das obras de Tarsila de Amaral. E então duvido se vou encontrar na literatura brasileira do XX os exemplos que eu procuro... :(

PS2: Já encontrei um (mais um), num sebo. Verão no aquário, da Lygia Fagundes Telles. :))