Imitando a Maria, brasileira que mora na Suécia (tem o link ao seu blog na coluna à direita), resolvi fazer breves resenhas dos livros brasileiros que eu leio. Assim como as dicas ou traduções de músicas, acho que podem ser de interesse para alguém. Se não, vou fazê-lo mesmo para me divertir.Cacau é de 1933. É um dos mal chamados "romances comunistas" de Jorge Amado. Romances que são, na verdade, realistas e engajados. E é o segundo romance do escritor. Nele dá para ver, em alguns detalhes, que Amado ainda não é o grande escritor que depois será (em Capitães da Areia, de 1936, ou em Gabriela, cravo e canela, de 1958, por exemplo: os outros dois livros dele que eu li). Mas mesmo assim é um livro bom. E, mais importante, serve para entender como era a vida dos negros que, nessa época, trabalhavam nas roças de cacau em regime de semi-escravidão. Até serve para entender declarações como as da atual Ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, que achou compreensível que um negro não gostasse de um branco. ("Quem foi açoitado a vida inteira não tem obrigação de gostar de quem o açoitou", a ministra falou; e a imprensa não demorou em se jogar em cima dela. Claro que é ministra, e ainda da igualdade racial; mas também é pessoa...)
Meu trecho preferido do livro é aquele em que o negro Osório tem ordens de matar um companheiro porque o tal companheiro (esqueci o nome) esfaqueou o filho do fazendeiro (a quem achou transando com sua namorada). Aí Osório diz: Pega tudo e vá embora. E abraça o companheiro. O companheiro vai embora, e Osório dispara pro mato. O narrador, que é o único branco que trabalha na roça, presencia a cena e fica comovido. Osório diz: Capataz até eu mato, mas trabalhador eu não mato. O narrador fica pensando nos motivos de Osório. Osório gostava do outro? Gostava, sim, mas não foi por isso que não o matou. Então pensa que foi por generosidade. E finalmente diz: Só quando cheguei no Rio aprendi o que era aquela generosidade. Uma palavra bonita: consciência de classe.
O Ronaldo, que foi, junto com a Rose e a Rosa, quem me deu o livro de presente, guarda na sua casa em Salvador um recipiente de vidro cheio de papelzinhos dobrados; papelzinhos com frases que ele mesmo procura e digita no computador. Os amigos podem pegar esses papelzinhos, e eu guardo dois deles em casa, correspondentes às duas visitas que lhe fiz (guardo eles inapropriadamente, num cinzeiro onde deixo as moedas de 5 e 10 centavos). A Gabriela copiou essa idéia, e tem agora um recipiente desses em casa, e pouco a pouco vai enchendo-o de papéis. A primeira frase que eu ganhei dela foi a seguinte, bem relacionada com o livro de Amado. Frase de Dom Helder Câmara, religioso cearense, arcebispo emérito do Recife e Olinda:
"Se dou comida aos pobres, chamam-me de santo; se pergunto por que pobres não têm comida, chamam-me de comunista."
Nas imagens, colheita de cacau e trabalho nas barcaças.
Mais sobre este tema em Fazendas de cacau na ficção amadiana.



















