Friday, November 02, 2012

A casa das sombras, de Patricia Highsmith

(Para o Uri, que está sem boas leituras.)

A casa das sombras (The Black House, 1981) me reconciliou com os contos, gênero com o qual não me dou muito bem. Não lia contos tão bons desde os últimos de Alice Munro, em Too Much Happiness (para quando, aliás, o Nobel para ela?). Parênteses: Tive vontade de conhecer de uma vez Patricia Highsmith (não conhecia: também não me dou muito com o romance policial ou de mistério) em julho em Barcelona, quando li uma entrevista que ela deu ao Babelia. A manchete dizia, mais ou menos: "Só me interessam os loucos e os delinquentes". Gostei, e é tudo o que eu lembro da entrevista. Mas era uma boutade, menos mal. Porque, como alguém já escreveu, nada mais parecido com um louco do que outro louco, e com delinquentes profissionais acredito que seja igual. Fecha parênteses.

A capa do livro é estrategia de marketing, pois os contos não são de mistério, nem perturbadores, como diz na contracapa. Nem de detetives, espiões ou coisa parecida. "... As vidas narradas parecem bastante normais, mas, aos poucos, revelam sua proximidade perturbadora com o macabro": isto é da orelha e tampouco é bem assim. São contos sobre vidas de pessoas "normais" enfrentadas a situações pouco comuns, nem sequer estranhas, com desfechos longe do macabro ou do perturbador. A não ser que se considere perturbador o que há de mais egoísta e ruim nos seres humanos. Mas o que há de bom e generoso, e o que há entre esses extremos, também se encontra aqui.

Lembro de cada um dos contos e de sua maravilhosa diversidade. Quase nenhum se passa no mesmo lugar do que outro ou tem personagens ou conflitos parecidos. Um se passa em Londres, outro no interior dos Estados Unidos, outro em Roma, dois ou três em Nova York, mas em bairros de classes sociais diferentes. Temos uma narrativa do mar (como eu gosto!): um barco pesqueiro que navega ao longo da costa de Long Island encontra uma nadadora desfalecida; mas não é um fenômeno estranho, o narrador conta que a jovem se chateou com umas amigas na praia, fez uma aposta e nadou longe demais; os marinheiros a recolhem,... Outro conto narra um sequestro realizado por uns malandros amadores meio tarados. Outro poderia estar num filme de Woody Allen: casais arrogantes e metidos fazem a vida impossível a um amigo solteiro, no East Side de Nova York. Outro é o luto de um menino pela irmã morta; outro, a volta de um homem de mediana idade à cidadezinha onde nasceu e cresceu e onde o pai acaba de falecer; outro, que se passa no Bronx, conta a história de um adolescente que toca num grupo de rock e é renegado pelo pai, que decide deixar de sustentá-lo. Em meu conto preferido, talvez o mais "misterioso", uma mulher recolhe uma cesta de vime na praia, estragada pelo mar; faz um trabalho perfeito de cestaria, conserta-a com uma habilidade que ela não tinha consciência de possuir, e isso a leva a pensar numa ancestralidade viva em algumas pessoas. "A casa das sombras" (uma casa parecida à da capa), conto que encerra o livro, pode ser lido como uma paródia das próprias histórias de mistério ou como reflexão sobre a invenção do mistério como necessidade vital. O estilo é o único que os contos compartilham: direto, claro, conciso, nada enfeitado, com personagens verossímeis e tratados com ternura, com descrições realistas (quando precisas) e diálogos vivos. E com humor.

PS: Semanas atrás, disse à Marinella que não entendia que os escritores que dão aulas de escrita criativa não dessem a ler aos alunos estes contos. Ela me disse que o Charles Kiefer os citou recentemente.


4 comments:

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