Friday, November 20, 2009

Capítulo 14 (rascunho)

Não procure em fúteis brigas de infância entre irmãos, poderia ter dito à doutora J.-P.; nem em inexistentes conflitos familiares. Procure, melhor, nos livros que eu li, com suas idealizações, ordenações, sistematizações. Procure nas chamadas ciências humanas. (Continuem a chamar a economia de ciência, agora, com esta crise que afeta o mundo inteiro e que ninguém previu; digam isso aos nova-iorquinos que nunca imaginaram que iriam comer sopa na igreja de Chelsea.) Quão ingênuo eu fui, quão absurdo ter buscado auxílio em Montaigne ("Querer, desde agora, isto e aquilo, mas sem desposar-se com qualquer coisa que não seja nós mesmos. Ou seja, que o demais esteja em nós, mas não tão unido e colado que não possa se desprender sem nos arrancar a pele e algum pedaço de nós"), ter lido sobre o amor e sobre a amizade depois das turbulências do namoro com Taís. Se Taís foi o fator que precipitou a doença, a predisposição veio dessas leituras e de como eu as fiz. Nenhuma outra coisa poderia explicar que minha compreensão de Taís fosse tão distorcida, minha análise do fracasso do relacionamento tão errada e tão irracional. Aqueles livros podem, e a maneira em que os li: anotando, resumindo, esquematizando, reduzindo esquemas até que coubessem em post-its.

Honte à Thierry Henry



Ireland não merecia isto. Os irlandeses gostam de futebol como ninguém.



Thursday, November 19, 2009

Capítulo 13 (rascunho)

Alguém escreveu que nunca deveríamos sequer tentar voltar aos lugares onde fomos felizes. Mas, quando fugi a Nova York, eu já não acreditava no que lia nos livros. Sempre fui de tudo ou nada, e entre 1998, quando me formei na universidade, e 2000, quando fugi, deixei absolutamente de ler. Não só isso. De freqüentar a biblioteca da faculdade, onde, um mês ou três semanas antes das provas, começava a estudar, lendo, um dia atrás do outro, até as 12 horas da noite, obras literárias, filosóficas, históricas, dos mais diversos autores, passei a trabalhar em um quartinho de dois por três metros em uma caseta de obra ao lado de uma escavação. Era uma escavação monstruosa, de 18 metros de profundidade e quase 40 mil m2, com dezenas de muros de contenção e longas ancoragens, e desde suas bordas parecia um ninho de formigas, com centenas de operários, caminhões, misturadores de cimento e outras máquinas menores. No único bairro de Barcelona com espaço ainda urbanizável, na ponta da avenida Diagonal, ao lado do mar, estava sendo construído um grande centro comercial, com cinco níveis subterrâneos e três níveis de lojas. Eu devia fazer de tradutor e de intérprete, mas logo fui dispensado da segunda função, da qual passou a se ocupar exclusivamente minha colega. Já estava doente, e teria precisado de toda minha capacidade de concentração para entender e traduzir o que diziam nas reuniões os representantes da imobiliária norte-americana aos responsáveis da construtora espanhóis e vice-versa. Minha colega e eu ficávamos no quartinho, mas as cartas e documentos a serem traduzidos chegavam muito intermitentemente, e isso me dava a oportunidade de fazer aquilo do que eu mais gostava, descer à obra. Pegava emprestados um par de botas e um capacete protetor e me deixava guiar por algum dos engenheiros estagiários - que, mais do que os engenheiros chefe, que saíam pouco de suas casetas, eram os encarregados de passar as ordens aos chefes dos grupos de operários e de controlar que tudo corresse bem. Gostava de andar pelas rampas, pisar no barro do fundo da escavação, passear entre os pilares de concreto armado e os metálicos, ver como o concreto era vertido para formar as lajes. Admirava o reflexo das nuvens nas superfícies líquidas, banhadas para a cura do concreto, e me perdia entre as sapatas e barras de aço verticais que ainda sustentavam as lajes já secas, no que eu via um bosque. Depois de anos de estudo, sentia satisfação e alívio - e uma ponta de orgulho - por estar, de alguma maneira, participando na construção de algo material.

Wednesday, November 18, 2009

Cobain

Nunca fui fã do Nirvana (eu sempre estou meio atrasado, em questões musicais... :o), mas desde que assisti ao filme Last Days, de Gus Van Sant, fiquei interessado pela pessoa de Kurt Cobain, e hoje comprei o livro Cobain by The Editors of Rolling Stone, uma compilação das matérias escritas na revista antes e depois de sua morte. Queria compartilhar a capa posterior, que adorei. É do ilustrador Philip Burke. E este é o post n° 600 do blog. Parabéns! :p




PS: Do livro Renato Russo de A a Z, que eu ganhei do amigo Ronaldo. Cobain segundo R. Russo, em 1994 (ano em que Cobain se suicidou): "O homem é o melhor letrista que apareceu nos últimos dez anos. O cara era fera. Fica até difícil explicar como eu o achava bom. Foi uma grande perda. Era poeta de mão cheia, e não apareceu ninguém como ele. Não com a sua idade, falando as coisas que ele falava"; "Em geral, o rock'n'roll é muito adolescente. A poesia que existe nele, se existe, é sempre uma coisa de oitava série. Aliás, eu sou acusado disso. Mas, se você pegar uma letra do Kurt Cobain, vai ver que ele falava para todo mundo".

Tuesday, November 17, 2009

Capítulo 12 (rascunho)

Foi bom ter ido ao café durante a semana - consegui escrever alguns parágrafos. Até a sexta-feira, quando, por causa de uma tempestade de neve, metade da cidade parou. (O tempo continua muito frio. Frigid, é a palavra que eles usam. É o inverno mais frio dos últimos anos. Há anúncios no metrô pedindo às pessoas que possam permanecer em casa que não saiam. Nas margens do rio Hudson, formaram-se grandes placas de gelo, que balançam pela pressão da água, visível somente através de finíssimas fendas. Estes dias, a margem do rio oferece uma imagem surreal: a de um Airbus amarrado por cabos de aço a um dos cais, com o morro emergindo das águas e as asas e a parte da cauda submersas: é o avião que pousou e ficou flutuando no meio do rio, na mesma tarde de minha chegada, quase simultaneamente ao pouso de meu avião no JFK. Mas estou divagando.)

A sexta-feira da tempestade o café lotou, só ficou tranqüilo depois do almoço, e nessa hora apareceu Anne. Foi um impulso: acenei. E logo que tive acenado, senti que devia convidá-la a sentar. Assim funciono. Antes mesmo de ela despir o sobretudo e deixá-lo dobrado no banco, já estava arrependido. Anne é linda, de olhos grandes e escuros. Enquanto tirava as luvas e o gorro, para mim só existiram seus cabelos, loiros, amarrotados na cabeça, caindo em desordem ao longo do pescoço, enroscados no suéter azul. Fui surpreendido por seus olhos e aquele sorriso do primeiro encontro, e de imediato me encolhi, temendo o que ela ia fazer - o que talvez gostaria de já ter feito -, para o qual eu não estava preparado.

Em vão lhe perguntei pelo acontecido no consultório. O trem não chegou à estação, fui obrigada a dar meia volta, ela simplesmente disse; e, assinalando meu caderno, que eu não tive tempo de esconder, perguntou:
-Esse é o livro?
Eu tinha um segundo para escolher. Ou estava escrevendo sobre um neurótico obsessivo, o que me deixava em uma posição delicada, ou estava escrevendo sobre múmias, o que me deixava em uma situação não menos pior. Ela escolheu por mim:
-Era sobre o que, do Peru?
-Uma múmia. Você entendeu bem. - Senti-me ridículo, por dizer que esse era o assunto, e, ao mesmo tempo, ofendido, como um escritor, por seu esquecimento, ainda que fosse fingido - uma forma de provocação. Ridiculamente ofendido.
Ela percebeu e recuou. Mas, ao fazer a pergunta, não tinha sorrido; se alguma coisa, mostrou interesse, sincero ou não. Tive que mudar de tom.
-Sobre uma múmia de mais de quinhentos anos, encontrada em um vulcão dos Andes. - Precisava lembrar rápido do velho artigo de jornal. - Os incas faziam sacrifícios humanos aos seus deuses, e ela, uma donzela, como eu diria, foi uma das eleitas. Encontrou-a, há algumas décadas, um explorador. Daqui. De Illinois, se eu lembro bem. Quando o gelo fundiu devido à erupção de um outro vulcão.
-Então é verdade - disse Anne.
-O que.
-Que há uma múmia. - Sorriu de novo: - Que você está escrevendo sobre ela.
-Sim. Há uma múmia. Numa urna de cristal, a não sei quantos graus abaixo de zero. Em Arequipa, não em... Você esteve no Peru?
-Não. Mais ou menos perto. Fiz uma viagem depois de formada. Brasil, Argentina, Chile.
-Onde você se formou? - disse eu, não desistindo de desviar a conversação.
-Aqui em Nova York - ela disse -. O que tem essa múmia? Qual é a história?
-Nada. Ela é linda, se você pode acreditar. Os incas sacrificavam as jovens mais bonitas. E está incrívelmente bem preservada. Com os cabelos, a pele, os olhos, as roupas, tudo.

O garçom trouxe à mesa uma omelete recheada. Anne temperou com meticulosidade a salada. Quando terminou de fazê-lo, espetou uma azeitona e, olhando de novo para mim, insistiu, queria saber da história.
-Esses são fatos que estão nos jornais - eu disse -. A história veio depois. Alguém gostou do relato que o explorador, ou antropólogo, esqueci o nome, escreveu sobre a expedição, e idealizou tudo o que leu sobre Sarita.
-A múmia.
-É. Conseguiu enxergar nas descrições uma mulher que não existia. Vai saber. Que existiu, só que quinhentos anos antes. Pode-se dizer que se apaixonou. Ou endoideceu, segundo a opinião mais sensata. - Adicionei: - E a minha.

Anne deixou o garfo no prato.
-Desde esse momento, esse alguém só quis saber de Sarita. Você vê: uma história de amor impossível. Uma história de amor malucamente impossível.

Anne, séria, por alguns minutos somente comeu, cabisbaixa. Eu, meio coibido, não soube o que mais dizer. Minha vizinha era realmente bela. Querendo observar seu rosto, virei-me repetidas vezes para os jovens nas outras mesas e a dona atrás do balcão, que lavava louça. Bela não como a jovem do patamar da escada, segura de si, extrovertida e brincalhona; bela de uma beleza mais silenciosa, como devia sê-lo no consultório quando enfrentava um conflito real. Com pequenas rugas entre as sobrancelhas e abaixo das pálpebras.

Devia lhe perguntar se também ouvia a música, de ritmo e melodia tão pouco familiares, que, à noite, quando eu me deitava no quarto, cansado de não ter escrito, me incomodava e me impedia de ler. Havia auscultado as paredes e o chão, e concluído que vinha do andar de cima. Mas não era apropriado, e nesse momento não me importava tanto. Sem ter terminado a omelete, Anne fez menção de se levantar. Tinha um paciente aguardando, disse. De pé, pondo as luvas, pediu, antes de ir:
-Escreva essa história. Gostaria de ler.

Comi a metade de sua omelete, pedi um outro café. Se eu duvidava de ter a capacidade, a força, inclusive a vontade, necessárias para escrever sobre a minha própria doença, não ia escrever a história de um homem apaixonado por uma múmia, em um país desconhecido para mim, só para a satisfazer.

Un president contra l'Alzheimer

Para quem, como minha amiga Gabriela, quiser aprender catalão, este é um documentário produzido pela televisão pública da Catalunha (TV3) sobre o Alzheimer, meio protagonizado por meu querido ex presidente da Catalunha e ex prefeito de Barcelona, Pasqual Maragall. O outro protagonista é um cidadão que também sofre a doença. O documentário é meio em catalão, meio em espanhol, dependendo de quem se expressa (naturalmente e sem pausa, passa de uma língua à outra). Tem momentos muito emotivos, é bem didático, e ganhou um prêmio de jornalismo em medicina.



Para ver em formato maior: http://www.tv3.cat/videos/680079

Sunday, November 15, 2009

Ave Maria, Ronaldo!

O grande amigo Ronaldo mandou, estes dias, sete (sete!) Ave Marias em mp3. Guardei todas elas na pasta "Ave Marias do Ronaldo". Junto com Bach e Schubert, são versões de Stevie Wonder, Raul Seixas ("Ave Maria da Rua"), Gonzagão ("Ave Maria Sertaneja"), Jorge Aragão (gravada na mesa de um botiquim), "Ave Maria Morena" (uma salsa) e os Scorpions ("Ave Maria do Morro").

Ele escreveu o seguinte: "Hoje eu vim andando, já que a Dona Márcia resolveu não dar aula, e no caminho eu escutei a bela e clássica música das 18h, a 'Ave Maria' de Schubert, com Stevie Wonder. Quando pequeno, nós (eu, meus irmãos e vizinhos), ao escutarmos ela, dávamos bença aos nossos pais e parávamos de brincar, pois nossos velhos diziam que na hora que esta música tocava não deveríamos pular, correr e nem gritar, só escutar... Ficou uma coisa sagrada, e até hoje é assim, mas só quando a escuto . Então aí pensei logo em baixar ela, só que achei tantas coisas legais...".

Friday, November 13, 2009

Capítulo 11 (rascunho)

A descoberta, na vizinhança, numa esquina deste bairro semi deserto e de casas depauperadas (algumas possivelmente abandonadas, a julgar pelo mofo nos tijolos e as portas e janelas trancafiadas), de um impensável café tem levantado meu ânimo e reduzido a freqüência de meus deslocamentos a Manhattan. Aqui, mais de quatro ou cinco pessoas compartilham o mesmo espaço - aqui e em nenhum outro lugar (com a exceção da barbearia, que, de fora, parece-me um centro multi-uso para homens em idade de se aposentar). À esquerda da porta de entrada, um sofá e duas poltronas recriam uma pequena sala de estar - no sofá ou numa dessas poltronas, de manhã, leio o jornal, com maior ou menor abandono, segundo a consciência; no outro lado, na parte que forma ângulo, igualmente envidraçada e com luz de dia, há outras duas poltronas (às vezes aproveitadas por duplas para reuniões de trabalho) e um aparador com dúzias de revistas e jornais locais. Logo, encostadas por um extremo à parede, que é adornada com arabescos que parecem de pão de ouro, há duas mesas grandes de madeira antiga, com seus respectivos bancos. Sobre as mesas giram, penduradas no teto por fios de lã, xícaras de papel pintadas por crianças. No balcão, em bandejas de pé, estão à mostra bolos e cup cakes deliciosos, caseiros. (Simplesmente pela esmerada caligrafia, é gostoso ler o cardápio apoiado na parede.) E no corredor que leva ao banheiro, há uma mesa menor, meio escondida, com um banco de concreto revestido de almofadas e encostos com motivos indianos. Neste cantinho, separado da porta do banheiro por uma prateleira repleta de livros e jogos de mesa, eu escrevo, à luz de um abajur. Ou poderia escrever. Porque as frases continuam se esquivando. Distraio-me repassando o contorno de certas palavras, dando-lhes volume (o nome do café, o título de uma música, que toca baixinho, para não atrapalhar). Contemplo as xícaras no ar. Reparo nos fregueses. Jovens que, tendo empilhado suas peças de agasalho nos bancos (casacos, gorros, luvas, cachecóis), digitam ou lêem em seus MacBooks (todos iguais). Sentam tão perto uns dos outros, e estão tão concentrados, que poderiam se confundir de xícara de café ou de torrada, pois nem quando dão um gole desviam a atenção dos laptops. Quem está sentado, dedica um aceno de cabeça cordial a quem senta ao lado - e mais um quando os olhares se encontram por acaso. Mas ninguém estabelece uma conversação. São educados e discretos, trabalham em silêncio e sem interrupção. Gostaria de saber quem são, em que trabalham. Algum deles tem idade para ter sido meu colega no curso de edição - poderia estar lendo um original (ou, pelo contrário, trabalhando no menos parecido com uma editora). Quando levava a família inteira ao restaurante (ir aos restaurantes fazia parte do seu trabalho), meu pai costumava brincar de adivinhar o futuro ou o passado recente dos casais, e gabava-se de não se enganar (claro, ninguém podia comprovar). Agora posso me dar ao luxo de imitá-lo, livre de qualquer limitação. Mas eles não falam. Estão isolados. A dona do café, no início lacônica, já sorri para mim, e o garçom e a garçonete me reconhecem. Não se vestem como garçons: suas roupas são iguais às dos jovens nas mesas, folgadas, surradas, talvez de algum brechô do próximo Williamsburg.

Capítulo 10 (rascunho)

Quem esteve apaixonado alguma vez compreende sem dificuldade ao amigo apaixonado. Mas como pode um amigo, ou mesmo um psicólogo, compreender a quem sofre uma neurose ou um outro tipo de doença mental? Como pode se fazer uma idéia cabal do modo em que essa mente opera? Além da trilha, o caminho ou a estrada da saúde mental, existe um espaço infinito para se perder. E se nem existem palavras para definir o estado em que os pensamentos fluem, como as há de haver para descrever esses outros lugares - cada um diferente, eu imagino - em que as mentes doentes se instalam? Longe de se resignar - e apesar de uma solidão de estremecer -, o doente tateia, procura um caminho de retorno. Experimenta métodos, atitudes, terapias e fármacos; até descobrir que, por alguma dessas vias, vai se reaproximando, pouco a pouco, da normalidade, do estado anterior. Mas nem os conselhos, sugestões, empatia de psicólogos, familiares ou amigos lhe servem de ajuda sustancial. A ajuda é sempre aproximada, nascida do que estes são capazes de interpretar prestando atenção às explicações (comparações, metáforas, porque faltam palavras) e preenchendo os espaços vazios com seus conhecimentos ou experiência. Ele percorre o caminho só, sem a certeza de que leve a bom porto - ao contrário: com o temor indizível de que o sofrimento não tenha fim, de que não haja saída -; sem ter maior confiança do que a própria.

Tuesday, November 10, 2009

Indignação, de Philip Roth

Estou chegando ao final de Indignação, o último romance (ou penúltimo, não sei, porque ele escreve sem parar) de Philip Roth. Foi uma recomendação do amigo Pedro. Eu estava com receio, não queria ler mais uma história parecida às de The Human Stain ou Everyman (não li nenhum dos romances anteriores, como Portnoy's Complaint), inevitavelmente protagonizada por um velho e amargurado professor universitário que fica com a jovem mais linda do campus - com uma ou várias cenas de sexo no escritório. Porém o Pedro me disse que não era o caso: o romance se passava em um campus, mas o narrador era um jovem estudante recém-chegado, que não se adaptava aos colegas e trocava três vezes de quarto em um mês; um pouco parecido, disse, com O apanhador no campo de centeio. Encontrei semelhanças, sim, com O apanhador..., e também com o Retrato do artista quando jovem, se bem que o protagonista de Indignação, Markus Messner, não é tão revoltado como Holden Caulfield (ou não tão profundamente revoltado), nem é um gênio como Stephen Dedalus: é "só" um "aluno nota 10" (ele usa essas palavras para se proteger).

O narrador-protagonista descreve tudo, em todo detalhe, com toda a complexidade, usando sempre as palavras exatas: o entorno (desde o açougue kosher do pai até o dormitório universitário), as relações, as emoções, as falas (há grandes diálogos no texto). Isso, que facilita a leitura, contradiz alguns teóricos da literatura, àqueles segundo os quais contar tudo seria ruim porque não deixaria espaço para o leitor pensar. Mas há muitas maneiras de fazer o leitor pensar. E, aqui, o leitor talvez não deva preencher espaços vazios na história, mas é levado a pensar, e muito, sobre o porquê dos fatos narrados poderem acontecer (acontecerem, de fato).

Há muito eu não lia um livro tão violento, de uma violência verbal, psicológica, soterrada, feita de chantagens, hipocrisias e também pura crueldade; de pais para filhos, de professores para alunos, de colegas para colegas; e também (sobre tudo?) com essa violência sem agente definido, a exercida pela sociedade, a "tradição", a "regra"*. Depois de ler um trecho determinado, já perto do final, tive que parar, sair da cama e fumar um cigarro; não pelo vício :), senão porque aquilo que estava acontecendo na história era duro demais. Romances como este fazem falta para mostrar vivamente (e, nisso, os livros de Salinger e Joyce são também grandiosos exemplos) a revolta contra a sociedade que a gente criou.

No meio da história, o narrador revela um fato importante. Essa é a única falha que até agora encontrei: é esquisito ter esse dado tão cedo. Mas, quem sabe, as últimas páginas dêem uma lógica a isso. Afinal de contas, trata-se do monstro Philip Roth.

E achei a tradução, de Jorio Dauster, muito boa. O português flui, nenhuma frase parece estranha ou calco do inglês.


*Um trechinho: (...) eu próprio havia sido tragado pela insipidez não apenas dos costumes da Universidade de Winesburg, mas da retidão que tiranizava minha vida, a retidão sufocante que, eu estava prestes a concluir, levara Olivia à loucura. Mamãe, não examine a família para conhecer a causa - examine o que o mundo convencional não considera permissível! Olhe para mim, tão pateticamente conformista ao chegar aqui a ponto de não poder confiar numa garota só porque ela chupou meu pau!




Ward Sutton

Monday, November 09, 2009

Capítulo 9 (novo rascunho)

J.-P. era daquelas que ficam caladas. Nesses momentos, eu ficava calado também. Quando o silêncio se prolongava e se tornava desagradável, ela afastava a vista o instante de acender seu cigarro preto, reerguia a cabeça, e dava a primeira tragada já com os olhinhos inquisidores, meio risonhos, cravados em mim, levantando o queixo como perguntando: Que? Eu me recostava no sofá, apoiava uma perna sobre a outra, deitava a cabeça para trás e via, por entre as lâminas da persiana, de cabeça para baixo, as roupas estendidas nos varais e os toldos das sacadas do pátio interior do quarteirão (pátio interior grande, do Eixample barcelonês); ou, então, detinha-me no único enfeite nas paredes brancas, vazias, da sala: a reprodução de um desenho de Picasso. Minha memória faz troça de mim. A lembrança é viva, mas não podia ser um minotauro de imenso falo deflorando uma ninfa, é descabido. Não: era um rosto de mulher, feito de um só traço. Bosquejo, poderia ser, da Mulher de cabelo amarelo do Museu Guggenheim, com suas curvas ondulantes - impossíveis, de tão singelas - e suas cores infantis, cálidas e amorosas.

Esses silêncios me exasperavam, sobretudo quando eram aproveitados pela doutora para me perguntar sobre a infância. Se tive uma infância feliz. Se brigava com meus irmãos. Que raios tinha a ver minha infância com o fato de eu estar abalado por não ter convidado expressamente um colega de faculdade a ir ao teatro (ter dito, só: pode ir, se estiver afim), ou ter dado tchau, mas não no tom apropriado, à mãe de uma amiga? Que tinha a ver minha infância com o fato de algum interruptor no meu cérebro ter sido desligado, ou ligado, de um dia para o outro, um ano atrás? Se as perguntas da doutora eram um modo de me mostrar e me empurrar para uma outra direção, ela subestimava a força do que não me permitia avançar.

A maioria das vezes, porém, minha obsessão pelo que tinha dito ou feito a tal ou qual pessoa nas horas ou os dias precedentes, a urgência de ter de saber se tinha dito ou feito bem, não lhe deixavam mais opção do que entrar no jogo. Então a conversa, a exposição do que tinha estado me atormentando, sua visão sob uma nova luz, permitia que me desse conta de como aquilo era absurdo, desfazia, com sorte, o motivo de obsessão. Era um me dar conta instantâneo, uma realização imediata, como sentir um céu se abrir.

Chegada a hora, ela batia a mão não coxa, e dizia, em tom fingidamente aflito: Temos que ir. Era só eu que ia. Saía dissimulando o descontentamento, se na sessão não tinha me desvencilhado totalmente da pergunta, ou, no caso contrário, aliviado, satisfeito, pulando os degraus de dois em dois, com a vontade de chegar em casa e sentar à mesa, sorridente, com meus pais e irmãos.

Mas era sempre só um alivio. O caminho mais direto a casa passava por uma rua mal iluminada, de calçada estreita, com poucos transeuntes e quase sem lojas: só um muro comprido de concreto, uma garagem, um túnel de lavagem e vários night clubs. E era habitualmente em algum ponto dessa rua que uma nova pergunta começava a se insinuar, sem que eu tivesse qualquer recurso para impedir que tomasse forma. Em ocasiões derivava do que eu vinha de resolver com J.-P. - como se a doença também tivesse a capacidade de apresentar as perguntas sob diferentes óticas; em ocasiões era uma pergunta anterior cuja solução eu já tinha esquecido, o motivo de sua eliminação - em seu momento, diáfano - tendo perdido o seu contorno ou valor.

Sunday, November 08, 2009

Capítulo 8 (novo rascunho)

J.-P. não possuía a beleza nem a juventude de minha vizinha Anne - que, naquele então, nem devia ser formada. Tinha olhos de coelho, ora calmos, ora atentos, boca pequena e fina, dentes e unhas amarelados do muito fumar. Comecei a visitá-la em janeiro de 97, um ano depois que, de um dia para o outro, meu cérebro saísse dos trilhos (e se houvessem trilhos no cérebro, a frase não seria uma metáfora); quando pesou mais o pavor do que me acontecia do que a vergonha de ir ao psicólogo.

Pelo segundo de meus cadernos, sei que foi trás a leitura de umas páginas de um livro de Erich Fromm que acabei de me decidir. A neurose era, para ele, a expressão ou sintoma de um conflito moral, e eu associei o que eu estava fazendo ao que ele chamava de "ética autoritária", em oposição à desejável "ética humanista": o temor da desaprovação e a necessidade de aprovação eram em mim os mais poderosos, se não exclusivos, motivos do juízo ético. Eu tinha virado autoritaríssimo, criticíssimo, duríssimo comigo mesmo. E tinha uma neurose obsessiva. Soube pelo livro que o caráter neurótico chegou a ser o foco principal da teoria e terapêutica psicanalíticas, e isso me levou à psicóloga e psiquiatra J.-P., em suas próprias palavras, freudiana eclética. O termo, porém (neurótico obsessivo), nunca saiu de seus lábios; o DSM IV não estava entre seus textos de referência. (A bíblia norte-americana da psiquiatria teria me encaixotado no grupo dos indivíduos com TOC - sem importar se eu tinha um, dois, três, ou todos os sintomas descritos, nem qualquer particularidade de caráter -; e não só: teria permitido, inclusive, uma avaliação da gravidade de meu estado em uma escala de 0 a 100.) Quanto devo à doutora por, sete anos depois, ter saído dessa, eu não sei, nunca soube; mas, acredito que felizmente, ela não batizou ou categorizou a doença.

Saturday, November 07, 2009

Capítulo 7 (rascunho)

A pergunta adquiria diferentes matizes. O que disse? O que quis dizer? O que sentia quando o disse? Resolvê-la era indispensável para me liberar dela e começar a viver em Nova York. Mas era uma pergunta que eu não me podia responder. Tinha a experiência acumulada de outras perguntas mais simples e ridículas. Para mim, nem sequer dois mais dois tinham sido quatro. Houve um tempo em que, para contar, comecei a reparar em qualquer coisa, em quatro pedras, por exemplo, em quatro lápis, em quatro árvores na rua. Só então "quatro" tinha algum significado. Ou me agarrava os dedos. Com vinte e tantos anos voltei a contar com os dedos. (Ocasionalmente, a realidade relativizava minha doença: em casa de Lídia, certa tarde de início de verão, enquanto tomávamos café sob os pinheiros do quintal, vários de meus amigos contaram com os dedos os dias que faltavam para irmos de férias; para eles bastava, porém, contar uma só vez.) Eu tinha machucado Lídia, e precisava averiguar se o tinha feito sabendo-o. Qualquer amante escrupuloso poderia se fazer tal pergunta, cansei-me de dizer a J.-P., minha psicóloga - e ela apertava os lábios, mostrando os vincos no buço, muda: as perguntas são já de uma outra categoria; seu objeto agora é exclusivamente Lídia, a pessoa a quem mais amo no mundo.

Capítulo 6 (rascunho)

Finalmente fui a Union Square. Andei pelo lado sul da rua 14, passei pela residência universitária sem me deter - da larga e longa marquise tinham retirado os painéis de metacrilato, deixando só a estrutura (protegido da chuva, eu não tinha fumado e conversado brevemente com alguém, alguma vez?) - e atravessei até a praça. O gramado está seco, queimado pela neve e o sol, e os galhos nus das árvores, como cabelos encrespados, não escondem as fileiras de prédios baixos ao redor, não ocultam a cidade. Sinais de proibição relativos a cachorros, comida e esportes, agora, com a praça deserta e em silêncio, parecem uma triste brincadeira. As folhas caídas têm sido varridas, mas as que restam formam círculos perfeitos aos pés de cada tronco, anéis marrons. Não sinto nada. Agora que estou inteiramente aqui, não sinto nada. Quão absurdo, querer rever a praça do verão. No entanto, não era por algo assim que eu esperava?

Desta praça liguei para o meu pai, sentado de pernas cruzadas na grama, deixando o corpo cair para a frente. Sem nada ver ou ouvir. Como se os grupos de jovens estudantes sentados em rodas, os velhos apertados os uns aos outros nos bancos, os mendigos e os bêbados ocupando bancos só para si, sem ninguém que os dividisse com eles, as músicas dos aparelhos de som e os gritos e murmúrios, estivessem, viessem de algum lugar distante. As lembranças podem ser tão mais completas do que os próprios fatos vividos! Era esse o meu medo destes dias? A inutilidade pressentida de querer voltar aqui? Meu pai intentava me resgatar. À menor chance, pedia-me que lhe contasse sobre o curso, sobre os colegas; e, sendo as minhas respostas vagas, interessava-se pelo que havia em minha volta - com sinceridade, mas ciente também que era isso do que eu precisava. Dizia-me que ouvia violões. O que tem ao seu lado? O que está fazendo para se divertir? Impelia-me a fazer um esforço. (Meu pai aplicando uma "técnica de distração", tão mais querida por vir dele; sem ele, nem eu, conhecer o nome ou existência dela.) Sem sucesso, porque tudo o que eu queria era sua ajuda para resolver a pergunta que não me abandonava havia mais de um ano - a última de uma série interminável.

O Boxeador, de Leonardo Wittmann

Esta é a curta-metragem do colega de Oficina de Escrita Criativa e amigo Leonardo Wittmann. Eu adorei. Não digo isso por ele ser meu amigo. :) É uma história singela e humana, contada com delicadeza. Como eu gosto.

Friday, November 06, 2009

Traduccions de Brasil 60 (A casa é sua, de Arnaldo Antunes e Ortinho)

Saudades do Ronaldo e da Rose, cujas "casas" estão sempre abertas. (E que amam o Arnaldo tanto quanto eu.)



La casa es tuya

No me faltan sillas
No me falta sofá
Sólo me faltas tú sentada en la sala
Sólo me falta verte llegar

No me faltan paredes
Y en ellas la puerta para que puedas entrar
No me faltan alfombras
Para que tus pies las puedan pisar

No me falta cama
Sólo me falta que te vengas a echar
No me falta el sol de mañana
Sólo me falta verte despertar

Que las ventanas se abran para mí
Y el viento juegue en el patio de atrás
Acariciando las flores del jardín
Meciendo la ropa a secar

La casa es tuya
Por qué no vienes ahora?
Hasta el techo está de cabeza baja porque te añora

La casa es tuya
Por qué no corres?
Ni el clavo aguanta ya el peso de los relojes

No me falta baño, cuarto,
lámpara, sala de estar,
No me falta cocina
Sólo me falta oír el timbre tocar

No me falta un perro
Ululando porque tú no estás
Parece que esté pidiendo socorro
Como todo aquí en este lugar

No me falta casa
Sólo falta que sea un hogar
No me falta el tiempo que pasa
Pero ya no puedo esperar

Para que los pájaros vuelvan a cantar
Y la nube dibuje un corazón atravesado
Para el suelo volver a su lugar
Y la lluvia repiquetear en el tejado

La casa es tuya
Por qué no vienes ahora?
Hasta el techo está de cabeza baja porque te añora

La casa es tuya
Por qué no corres?
Ni el clavo aguanta ya el peso de los relojes

Capítulo 5 (rascunho)

Incrédula. E essa capa de livro colada na porta do banheiro, abaixo do mapa da cidade do inquilino anterior? Imagino o que Anne pensaria se entrasse e a visse. Eu zombaria, sem disfarçar o tom de desencanto: 30 mil cópias vendidas. To great critical acclaim. Porém, é só uma capa, sem sequer nome de autor. A imagem de um vulcão em sombra, ao cair do dia, com letras brancas sobreimpressas em um céu azul anil. Under the Peruvian Snow. De todas as lembranças do curso, só essa não ficou engavetada por anos. Não por ser especialmente bonita, senão por seu significado especial: a prova de um pequeno e improvável sucesso. E o orgulho e prazer de um trabalho em equipe - não em solidão. Esqueci o nome e o rosto da garota que a desenhou. Sabia mexer no Quark e se ofereceu gentilmente para desenhá-las todas. (Lembro, entretanto, de minha expressão de gratidão quando a recebi de suas mãos, em um canto perdido do subsolo labiríntico da maior biblioteca do campus.) Anne observaria a capa, inclinando a cabeça para o lado, brincando de ajeitar o cabelo, e diria: Então você não deveria estar em Lima?

Capítulo 4 (rascunho)

No ano 2000 não pisei neste bairro, nem em qualquer outro ponto do distrito de Brooklyn. Minha vida transcorreu dentro do perímetro marcado pelas ruas 14 e 4, a Terceira avenida e University Place. Agora moro em Bedford-Stuyvesant, em um trecho da rua Bedford em que apenas há uma loja de conveniência, uma barbearia e um lúgubre take-away chinês. São três quarteirões até o metrô, e no caminho às vezes vejo, à minha frente, de salto alto apesar da neve não retirada da calçada, minha vizinha, a única que conheci. É psicóloga. De manhã trabalha em um consultório de Manhattan e de tarde recebe alguns pacientes em casa. Foi ela quem se apresentou. Eu ia carregado de sacolas, e antes de conseguir abrir a porta do apartamento a ouvi descer pela escada e se deter no patamar. Seu nome é Anne, ou Anna. Logo quis saber quem eu era, o que fazia. Eu escrevo, eu disse, e ela inquiriu sobre o que. Eu hesitei. Sobre uma múmia peruana, ocorreu-me dizer. Pelo seu olhar risonho, entendi que não acreditava. Deu-me tchauzinho com a mão, e terminando de amarrar o sobretudo cor-de-rosa à cintura sumiu escada abaixo. Ainda disse: Você não me parece um escritor!

Capítulo 3 (rascunho)

Mas por enquanto espero. Evito as ruas e avenidas por onde andei em 2000. Sempre ao norte de Union Square, caminho sem rumo, depressa por causa do frio, ouvindo o nylon do casaco crepitar, como se uma finíssima camada de neve o revestisse. Quando não agüento mais e sinto pontadas na testa e nas mãos, enfio-me em qualquer lugar, uma loja de departamentos, o vestíbulo de um prédio de escritórios. O refúgio pode ser a Biblioteca Pública - perto há uma loja de uma rede de fast food que serve sopas quentes em copos de papel. Reparo em certos arranha-céus como se fosse a primeira vez. Fantasio sobre a identidade dos moradores dos últimos andares de torres que parecem medievais, com suas gárgulas e seus pináculos, que, entrefechando os olhos, consigo ver recortados no céu. Imagino carpetes velhos e gastos, assoalhos de madeira, corredores sinistros conectando elevadores antigos e novos.

Nessa postura não reconheço ao jovem com um objetivo específico para estar aqui. Reconheço a atitude que, outros dias, tem me levado ao Museu do Brooklyn, me deixado obnubilado diante das máscaras - feitas de madeira, barro, pele de macaco, pregos - e dos totens africanos do amplo e alto saguão; ou, no Museu de Arte Folclórica, diante das superfícies vermelhas das saias das meninas retratadas por um pintor amador. Um estar sem estar, porém um estar sem estar prazeroso, tão diferente do outro. Como se existisse um contato direto dos sentidos com os objetos, sem qualquer mediação. Terá o meu pensamento - imagino, sorrindo - se espantado com o meu ressentimento e ido além, retrocedido demais?

Na mala trouxe livros e pilhas de papéis; fotografias, impressões de e-mails, cadernetas, cartas, caixinhas que nem sei o que contêm, que em Barcelona não abri. Arrumei os livros na estante baixa em frente ao sofá; o resto ficou tudo em cima da mesa, na cozinha. Talvez nada disso venha a ser de utilidade, algumas dessas coisas poderiam inclusive me atrapalhar. Mas a confiança na recordação dos fatos, na generosidade da mente para me presentear com pensamentos ou lembranças, é pouca, e o material que guardei de nove anos atrás, junto com a possibilidade de revisitar os lugares, parecem-me bastante preciosos, algo ao que não posso renunciar.

Thursday, November 05, 2009

Tadinhos futebolistas

A polêmica do aumento do IR na Espanha chegou ao Brasil. Como informa a Folha de S. Paulo, os clubes de futebol vão se reunir para decidir se fazer uma greve. Motivo? Os jogadores com ganhos superiores a € 600.000 anuais (R$ 1.500.000) pagarão 43% em vez do 24% atual. Agora: qual é a taxação na Itália para ganhos anuais a partir de € 75.000 ("só" 75.000)? 43 %. E na Alemanha, para quem ganha anualmente € 250.000? 45%. Parece que a maioria de clubes espanhóis (espero que meu RCD Espanyol de Barcelona não esteja metido nessa) estão preocupados porque, caso a medida saia adiante, sua Liga deixará de ser "A Liga das Estrelas", ou "A melhor Liga do mundo". O que não deixa de ser uma piada: segundo Rodrigo Bueno, também da Folha, um campeonato em que só dois times têm opções de ganhar (podem apostar, têm 50% de chances de ganhar uma graninha) estaria mais bem para o Pior campeonato do mundo. A ministra da Economia disse que "uma greve seria uma medida que nenhum contribuinte entenderia". Eu digo mais: proponho que a greve seja dos assistentes aos estádios, a maioria dos quais ganham menos de € 1.000 por mês. Referindo-se à medida, o presidente do Bar$elona disse, citado na Folha: "Isso pode criar um prejuízo na capacidade competitiva de nosso futebol". E eu digo ao J. Laporta: Que et donin pel cul.*

*Em catalão. Assim, caso ele, narcisista entre narcisistas, se procure no Google, poderá encontrar mais um insulto a sua pessoa.


PS: A aberração, que, desde que cheguei ao Brasil, considero que é o IR em vigor no país seria o motivo de um outro post que tenho preguiça de escrever. Mas só uma mudança corajosa do sistema fiscal (algo tão óbvio como que os ricos paguem mais) faria com que o abismo social, a maior vergonha nacional, diminuísse um pouco.

Capítulo 2 (rascunho)

Desde minha chegada, fui duas vezes ver os pingüins de Central Park. Que prazer enorme, ficar só olhando! O maior e mais gordo parece uma estátua de pingüim, imóvel sobre uma rocha, alheio a tudo. Outros se projetam fora d'água em pulinhos totalmente verticais. Muitos nadam, lançados como setas, deixando trás de si longos rastros de bolhas. Esse bicho é idiota. Que nem papai. (Cala a boca, filha.) Gosto de passar o tempo aqui no escuro. Levanto, sento, ajoelho-me com a face colada no vidro para ver os ventres finos e roliços, que embaixo d'água não parecem ter plumagem. Mas outros dias a consciência de ter de escrever é maior. Esses dias, nem ler o jornal eu faço tranqüilo. Com um gesto de desgosto, atiro todos os cadernos na primeira lixeira que encontro. Como se a leitura do jornal fosse um verdadeiro empecilho. Depois de todos estes anos em que só tive paz de manhã, tomando o café e lendo o jornal.

Capítulo 1 (rascunho)

Há tempo eu não consigo pensar. Só consigo esperar meus pensamentos virem. Quando quero pensar, sinto meus pensamentos. É assim desde que a doença ficou atrás. Então, não penso. Por isso escrevo devagar. Não conseguir pensar pode ser uma coisa boa. É não ter medo do futuro, nem remorsos. Ter um tipo de ansiedade, ou de impaciência, ou de saudade, que é sempre passageira, que não se instala. Mas significa, também, não poder antecipar, interpretar, planificar. Agir, decidir por impulsos e intuições. Quando escrevo, obriga-me a aceitar só pensamentos genuínos, o que me impede, não raramente, enlaçar duas ou três simples frases. Porém, são frases cheias de sentido, que por isso eu chamo de verdadeiras - mesmo que não sempre o sejam.

Triste isso

Tomei um café expresso carioca de R$ 2. Só tinha uma nota de R$ 50. A mulher usou a calculadora. Triste isso.

Tuesday, November 03, 2009

Capítulo 0 (rascunho)

Agora imaginem uma cidade sitiada e bombardeada dia e noite por um exército inimigo. Inclusive nesse cenário - e em determinadas circunstâncias - uma pessoa pode não ser capaz de esquecer suas preocupações mais banais. E, no entanto, a gente foge à menor oportunidade. Muda de lugar de residência, abandona seu trabalho, junta uma leve bagagem e se põe a caminhar. São momentos em que provavelmente não existe outra saída, momentos em que andar sem destino se apresenta como a única opção.

Homens desprezados atravessam oceanos para se afastar da amada, só para descobrir, ao cabo de uma vida intentando, que não a conseguiram esquecer. Mas o amor não é o único motivo. Há uma infinidade de situações que exigem lentas transformações da alma, e a gente não sabe sempre o que fazer durante a espera.

Reparem nos olhos opacos de Alicia, que fuma sentada nos degraus da escada, sozinha, em frente à porta do escritório onde trabalha. Reparem em Xavier, que percorre lentamente as ruas da cidade, chega até o cais, e fuma sentado em um dos bancos, com o olhar perdido entre o velame. Ou em Manoel, que todos os dias, em qualquer parque, em qualquer café, lê - um acúmulo de palavras sobre a inadequação das palavras, uma história que às vezes não entende, ou entende demasiado bem. Não estão sonhando. Não pensam no relatório a meio terminar, nem nos lugares aonde gostariam de escapar. Têm coisas mais importantes a resolver. Estão à espera.

A vida de quem espera é uma vida em suspenso, uma vida cujos eventos cotidianos são percebidos como um longo entreato; uma série interminável de encontros e desencontros não vividos. É a vida de Penélope e Cio-Cio San. É a vida de Ana, que de tanto esperar virou uma rocha de sal. Sua espera e sua esperança eram as mesmas. Esperaram o retorno do amado à beira do mar. Esperaram o que tiveram e perderam. Mas o amor não é o único motivo. Há coisas que se perdem sem as quais não é possível viver. Coisas que se perdem mas podem se recuperar. Perdas que não aniquilam a esperança, que obrigam a lutar quando já não restam forças.

Monday, November 02, 2009

Mais uma do grande CD do grande Andrés (Soy tuyo)


Saturday, October 31, 2009

La lengua popular

Oba! Oba! Tô feliz! Ganhei da Ana e o Leo o álbum* do Calamaro!!! Obrigadão-ão-ão!





Os caras

Se tu tens que ir lá para cima antes de mim
Porque existe a vida eterna
Leva em meu nome um cucumelo
Por se não chove no céu

E em nome dos 22
Dá ele ao cara, cuartetero,
E dá um longo abraço
Aos meus amigos que se foram primeiro

Também leva alguma das nossas canções
Que vão causar grande posteridade
Suponho que haverá uma cidade inteira
E me serve de consolo se me esperas lá

Muitos amigos se foram antes de mim
E me deixaram só, por isso se no inverno faz frio
Também desço ao inferno um pouco

Suponho que ninguém se vai totalmente
Espero que exista algum lugar
Onde os caras escutem minhas canções
Mesmo que eu não os escute opinar

Pega uma lista dos meus amigos
Quero lhes convencer de voltarem comigo
Se não vão esperar muito, e faz muito
Que os quero ver


*Ilustrado por Liniers!

Thursday, October 29, 2009

Da bunda

Uma garota da Polônia esteve no Rio de Janeiro pesquisando para sua dissertação de mestrado, sobre o filme Cidade de Deus. Em seu diário, publicado na revista Piauí, fez a seguinte observação:

"Nas ruas e no metrô não consigo deixar de olhar para o bumbum das garotas. Eles têm um formato totalmente diferente dos nossos, mais copioso. Não que as brasileiras sejam gordas, nada disso. Apenas têm mais carne, mais músculos. E todas usam calças bem apertadas. Quando andam, parece que fazem massa com o bumbum. Muito interessante".


Nota: Sorry, no photos para este post. Quem leia de Barcelona, que venha para o Brasil.

Tuesday, October 27, 2009

Tapume

Sábado passei por um prédio na Rua da Praia que não era normal. Me virei, mas não parei. Pensei: nossa, alguém fez uma obra de arte sem saber, vou ter que voltar para fotografar. A casa estava coberta de uma série do que me pareceram lâminas de madeira velha, coladas umas às outras formando curvas, semicircunferências, protuberâncias várias. Achei (bobo!) que era uma espécie de proteção que alguém inventou por falta de uma outra opção, redes, andaimes; a casa é antiga, caindo aos pedaços. Já perto da Praça da Alfândega, sentei para tomar um café, peguei a Zero Hora e achei um artigo titulado "Arte monstruosa em Porto Alegre" (ou alguma coisa assim). Não lembro o nome do autor, mas era um desses caras retrógrados em matéria de arte (todo o mundo conhece algum - será que eles são retrógrados em geral?, não é improvável...). No artigo, eram criticadas as esculturas de aço ou ferro que estão por todas partes na cidade (eu também acho algumas delas feias); o senhor se espraiava na crítica da viga-mirante pendurada à beira do rio Guaíba, no Gasômetro (que eu acho fantástica),... e dirigia sua máxima raiva (acho que esse era o motivo real do artigo) contra "essa casa monstruosa" da Rua da Praia (tão bonitinha que era a casinha sem intervenção de maluco nenhum, né? :p). Caiu a ficha. Orgulhoso de ter olho para reconhecer arte na rua, saí todo faceiro do café, com a vontade intensificada de voltar à casa e fotografá-la. É esta aqui. A obra (está escrito em uma placa) é do paulistano nascido em Ourinhos (em 1973) Henrique Oliveira. Seu título é "Tapume", e é feita de compensado (?) flexível, canos de PVC e compensado reciclado, produzida pela 7ª Bienal do Mercosul, que começa... bom, já começou.


Isto foi o primeiro que eu vi.








PS: E agora fiquei na dúvida. Isto que eu vi em Marselha, é a natureza imitando a arte, ou também é obra de alguém?

Monday, October 26, 2009

Motivos para no enamorarse (Carnaval de Brasil)

Ontem eu assisti com a Anna (Anníssima, Anninha) ao filme Motivos para no enamorarse, do argentino Mariano Mucci (o título é meio bobo, acredito que é só para atrair pessoas que nunca iriam ver esse filme). É uma história triste que se passa em Buenos Aires, sobre duas pessoas solitárias, que, no entanto, guardam ainda uma ponta de esperança. Ele, um homem maduro, perdeu a mulher e mora sozinho em um apartamento grande e escuro, com apenas mobília (tem um segredo em uma casa fechada, na praia); ela tem 26 anos, trabalha em um call center (as meninas fingem que ligam de Barcelona: é assim que fazem os empresários, se mandar para onde seja possível pagar menos aos empregados), e, por causa de um relacionamento que não deu certo, diz que gostaria de apagar de sua vida os últimos vinte anos. Filme triste e lindo, e bom, e barato, imagino (legal ver que filmes bons podem ser feitos com pouca grana - te liga, Uri); talvez o primeiro do diretor.

Mas o que eu queria botar no blog é a música dos créditos finais, de Andrés Calamaro, "Carnaval de Brasil": grande como todas as dele (e as de seu colega Fito Páez). É sobre as musas. Sobre seu ir e vir, sobre sua necessidade ou não necessidade. Um trecho diz assim:

"Habrá que desenvainar las espadas del texto,
Y escribir una canción aunque no haya algún pretexto,
y dedicársela al primero que pase caminando,
al que se quedó pensando, al que no quiere pensar,
al olvido selectivo, a la memoria perdida,
a los pedazos de vida que no vamos a perder... jamás."




PS: Texto de Rodrigo Fresán sobre La lengua popular, o último CD de Calamaro, que inclui "Carnaval de Brasil".

Sobre el Maragall

Uri: "T'escric per dir-te que et llegeixis el reportatge que publicava avui El País Semanal sobre el Maragall. El fa el Millàs i a mi m'ha flipat com retrata un crack com el Maragall. A veure què et sembla".

Què em sembla? Em sembla que Catalunya no seria tan petita i miserable si la resta de polítics catalans li haguessin arribat a l'alçada dels genolls.

(O escritor J. J. Millás quer falar com Pasqual Maragall sobre a doença de Alzheimer, que lhe foi diagnosticada há dois anos, mas Maragall é tão genial que ele não consegue - só consegue se apaixonar pelo homem, como tantos de nós nos apaixonamos.)

"Si decir de alguien que fue alcalde de su ciudad y presidente de su comunidad puede parecer mucho, en el caso de Pasqual Maragall no es nada. Habría que añadir que fue el alcalde de los Juegos Olímpicos de 1992 y el presidente del nuevo Estatuto de Autonomía de Cataluña. Los Juegos modificaron el rostro de Barcelona, quizá también sus huesos, además de colocarla en la lista de las ciudades más hermosas del mundo."

Eu gostei especialmente desta parte aqui, porque me diz respeito:

"Uno había ido a Barcelona a por el Alzheimer de Maragall y no estaba dispuesto a que se le escapara (de nuevo la maldita etiqueta). Pero por Dios, si el reportaje estaba ante mis ojos. Tantos años de oficio y aún no había aprendido que escribir consiste en ser capaz de ver lo que tienes delante de las narices (véase La carta robada, de Poe). Maragall llevaba con paciencia al reportero de mierda que les habla, hasta que en un momento dado se volvió a Socías, el fotógrafo, y dijo señalándome:

-Este hombre es muy nervioso, no se da cuenta de que para que se dé la circunstancia del conocimiento tiene que haber tranquilidad.

Yo me sonrojé, como pillado en falta. Entonces Maragall me miró con afecto, sonrió y dijo:

-¡Estos madrileños!"

Saturday, October 17, 2009

:'(

Así se despidió de la audiencia, en directo, el día que España ganó el Europeo, el gran comentarista de baloncesto Andrés Montes. En ese momento, hace tan sólo un mes (20 de septiembre)*, no entendí nada. ¿Su último partido? Ayer fue encontrado muerto en su casa de Madrid. Descanse en paz, gracias por las emociones.



*Noticia del 21 de septiembre (Yahoo! TV): "Después de trabajar tres años para la cadena de Mediapro, laSexta ha decidido no renovarle su contrato por 'crecimiento y reestructuración'".

Noticia del 18 de octubre (El País): "Montes pasaba por dificultades económicas muy serias según fuentes judiciales. Tras comentar el Europeo, se encontraba ahora sin trabajo y deprimido. Recibió hace unos días la orden de desahucio de su vivienda, en Madrid".

"O sistema é um vampiro"...

PS: Artículo de Santiago Segurola.

Traduccions de Brasil 59 (L'âge d'or, de Legião Urbana)



Aprendí a esperar, pero no tengo certeza
Ahora que estoy bien, tan poca cosa me interesa
Contra mi voluntad soy tozudo, sincero
E insisto en tener voluntad propia

Si la suerte un día fue ajena a mi sustento
No hubo armonía entre acción y pensamiento

¿Cómo te llamas? ¿Cuál es tu signo?
Me gusta tu cuerpo, tu rostro es bonito
¿Cuál es tu arcano? ¿Tu piedra preciosa?
Es conmovedor que creas en esas cosas

Busqué varias salidas, de heroína a Jesús
Por vanidad hice todo lo que hice
Jesús fue traicionado con un beso
David tuvo un gran amigo
Y ya no sé si sólo es cuestión de suerte

Vi una serpiente entrando en el jardín
Puede que sea verdad esta vez
Mi tobillo escuece, por culpa de un mosquito
Me mojé los cabellos, me siento tan limpio

No hay belleza en la miseria
Ni hay nada que hacer por aquí
Probaremos otro camino
Estamos en peligro, y lo que aún no entiendo
Es que todo tiene sentido

Y ya no sé si sólo es cuestión de suerte
Ya no sé, ya no sé, ya no sé...

Oh, oh
Ahí vienen los gigantes de mármol
Con anzuelos en la palma de la mano
¿No es bello todo y cualquier misterio?
El mayor secreto es no haber misterio alguno

Thursday, October 15, 2009

Traduccions de Brasil 58 (Idade do Céu, de J. Drexler e P. Moska)

(Continuo apático - por isso não escrevo, nem sequer no blog. Ontem à noite, em vez de ler, fiquei ouvindo o CD de Simone e Zélia Duncan, Amigo é casa, bem baixinho. Quase todas as músicas parecem canções de ninar. Mas são tão bonitinhas que ouvi o CD até o final.)



No somos más
Que una gota de luz
Una estrella que cae
Una centella tan sólo
En la edad del cielo...

No somos lo
Que queríamos ser
Somos un breve pulsar
En un silencio antiguo
Con la edad del cielo...

Calma!
Todo está en calma
Deja que el beso dure
Deja que el tiempo cure
Deja que el alma
Tenga la misma edad
Que la edad del cielo...

No somos más
Que un puñado de mar
Una broma de Dios
Un capricho del sol
En el jardín del cielo...

No hacemos pie
Entre tanto tic tac
Entre tanto Big Bang
Somos un grano de sal
En el mar del cielo...

Calma!
Todo está en calma
Deja que el beso dure
Deja que el tiempo cure
Deja que el alma
Tenga la misma edad
Que la edad del cielo
La misma edad
Que la edad del cielo...