Thursday, July 23, 2009

Confissões, de Rousseau

Depois de muito olhá-lo na Cultura, um dia comprei este livro como um dever (não era leitura obrigatória*, mas no mestrado tínhamos uma disciplina sobre literatura autobiográfica); o comecei a ler com algum receio; de fato, o achei chato; lá pela página 200, quase o abandonei; e agora só espero a hora de deitar para continuar a devorá-lo.

Vou comentá-lo um pouco quando tenha tempo. E, principalmente, vou copiar alguns trechos (tradução de Rachel de Queiroz e José Benedicto Pinto). Por enquanto, só adicionar que, muito antes de ser citado pela professora da disciplina, foi, para mim, a recomendação de um "defunto". Podem me chamar de idólatra, mas as dicas de Renato Russo não as deixo passar (Anna: seu esporte preferido era a natação). Graças a ele descobri Pato Fu, o Tao Te King, Adélia Prado, e outros livros, bandas, etc. que agora não lembro. (Só não vou ler a Bíblia, que ele leu e releu.) (Até porque meu irmão Ramon me a roubou.)

Fragmento 1, do Livro Quarto:

Esses longos detalhes da minha juventude parecerão muito pueris, e isso me aborrece. Embora tenha nascido homem, a certos respeitos fui criança muito tempo, e ainda o sou em muita coisa. Mas não prometi oferecer ao público um grande personagem: prometi me retratar tal qual sou e, para que me conheçam na idade avançada, é preciso que me tenham conhecido bem na juventude. E como, em geral, os objetos me impressionam menos que as lembranças, e todas as minhas idéias são em imagens, os primeiros traços que se me gravaram na cabeça lá ficaram, e os que se imprimiram depois, antes se combinarem com eles do que os apagarem.

Fragmento 2, do Livro Terceiro:

O padre Gaime [...] pintou-me um quadro verídico da vida humana, da qual eu só tinha idéias falsas. Mostrou-me como, mesmo com um destino adverso, o homem sensato pode sempre aproximar-se da felicidade e correr a favor do vento para a alcançar; e como não há verdadeira felicidade sem sabedoria, e como a sabedoria é indispensável a todas as situações. Amorteceu muito a minha admiração pela grandeza, provando-me que os que dominam os outros não são nem mais sábios nem mais felizes do que eles. Disse-me uma coisa que me volta sempre à memória: é que, se cada homem pudesse ler no coração dos outros, haveria mais pessoas que quereriam descer do que pessoas que quisessem subir.

Fragmento 3, do Livro Segundo:

[A Sra. de Vercellis] gostava que eu lhe mostrasse as cartas que escrevia à Sra. de Warens e que lhe prestasse contas dos meus sentimentos. Ela, porém, não soube avir com acerto para os obter, nunca me mostrando nada dos seus. Meu coração gostava de se expandir, mas só quando sentia que o fazia em outro coração. Interrogações secas e frias, sem nenhum sinal de aprovação, nem de censura a minhas respostas, não me inspiravam nenhuma confiança. Quando nada me significava que minha tagarelice agradava ou desagradava, ficava sempre receoso, e procurava menos mostrar o que pensava do que dizer algo que me pudesse prejudicar. [...] Enfim, para ler no coração dos outros, é sempre um mau processo mostrar-se que se esconde o próprio coração.


Fragmento 4, do Livro Nono:

Sei que me repito, mas é preciso: a primeira das minhas necessidades, a maior, a mais forte, a mais inextinguível, residia toda no coração; era a necessidade de uma convivência íntima, tão íntima quanto o pudesse ser; era por isso, sobretudo, que eu carecia mais de uma mulher do que de um homem, de uma amiga que de um amigo.

Fragmento 5, do Livro Terceiro:

Nunca pude fazer nada com a pena na mão, em frente a minha banca e ao papel. É nos passeios, no meio dos rochedos e dos bosques, é à noite na cama e durante as insônias que escrevo, no cérebro. E pode-se imaginar com que lentidão, sobretudo para um homem inteiramente desprovido de memória verbal, que durante a vida inteira não pode guardar seis versos de cor.

Fragmento 6, do Livro Sexto:

Nos primeiros dias, a curiosidade me tornou indiscreto e [as abelhas] me picaram uma ou duas vezes. Mas logo fizemos tão boa amizade que me deixavam chegar tão próximo quanto eu quisesse, por mais cheias que estivessem as colméias, prestes a soltarem os enxames, que às vezes me cercavam, me pousavam nas mãos, no rosto, sem que nenhuma delas me picasse. Todos os animais cismam com o homem e têm razão. Mas logo que se certificam de que não lhes queremos fazer mal, sua confiança fica logo tão grande, que é preciso ser mais que bárbaro para a ludibriar.


*Deveria ser, como as Confissões de Santo Agostinho, o outro livro fundador do gênero.



PS nada a ver: Hoje acordamos com 4ºC de temperatura: voltei para a cama. Amanhã teremos 0ºC e será o dia mais frio da década em Porto Alegre. Quem diria, sair à rua com luvas. É verdade que há muitos Brasis.

PS nada a ver 2: Caetano Veloso, ontem na Folha: "Por mim, os ingressos todos dos meus shows deveriam ser menos caros, porque o público que tem muito dinheiro é, em geral, muito careta - e eu não sou careta".

PS nada a ver 3: An Ancient Society Faces New Change In Brazil.

4 comments:

Anna Faedrich said...

Muito bom ler isso do Caetano, pois hoje mesmo, no Café TVCOM, estavam criticando ele pelo preço dos shows... enfim, alguns cantores recebem incentivo do MINC para os shows (redução de impostos)com a condição de "baratear" o custo do ingresso e não o fazem. E citaram o Caetano.


Segundo meu pai, carioca da gema, que está por vir semana que vem :) [mas a trabalho], essa aqui é a "terra dos pinguins"... e não há carioca que se acostume com esse frio, heim!! rsrs [pensando no Ronaldo: imagina os baianos então!!]

Bom, para nós que temos que escrever... é até bom, dá mais vontade de ficar em casa trabalhando.

Mas isso é um pensamento muito egoísta... =/

Uma vez, um colega meu do segundo grau, colégio público, disse algo que lembrei agora: que só os ricos poderiam gostar do inverno, pois quem bem agasalhado está, só tende a aproveitar. Agora os outros...

poor boys... =/

Sobre a natação: quero ver a annanadadora agora o frio... brrrrrr!!!!!

;)

beijão, lindo!

Roger said...

O Caetano ofereceu shows mais baratos, sim, a 30 reais, no Norte, não lembro a cidade; só que também criticaram ele dizendo que isso ainda era muito. Enfim, o Caetano sempre está mais certo do que os jornalistas fofoqueiros que gostam de atirar nele (a Folha tem feito isso esta semana, não vi o programa da TVCOM).

Isto aqui está uma terra dos pingüins mesmo. E é triste isso que falou teu colega...

Beijão.

Anonymous said...

Y estás nel Brasil más europeo... Que feo!!

Roger said...

Quem é que disse isso, hein, hein??? Cuidado com mexer com meu sentimento patriótico! Que eu sou 1/8 parte gaúcho! Tchê! :ppp