Friday, January 20, 2012

El rey pálido, de David Foster Wallace

Sobre The Pale King não vou tentar fazer nenhuma crítica, não seria capaz, só escreveria bobagens. Já escrevi muitos pareceres de livros, e lembro que os dos melhores eram sempre os mais difíceis. É muito difícil "to have informed, intelligent reasons for liking or disliking a piece of fiction, and to write - clearly, persuasively, and above all interestingly - about stuff you've read" (a citação é do próprio Wallace, está nos aims da disciplina que ele dava na universidade do Texas). DFW era um gênio, seu romance é uma obra mestra, e agora estou naquela situação de não saber o que mais ler, não encontrar nada que, em comparação, não pareça escrito por um aprendiz. Para o editor Jorge Herralde, "un escritor de culto es un escritor con una voz propia, que sorprende, exige y excita al lector": DFW tinha e conseguia tudo isso. (Obviedade: todo o mundo tem voz própria, todo escritor também. Mas não toda voz própria, ou visão do mundo, é igualmente fascinante, nem todo escritor com voz própria tem o gênio e o atrevimento para fazer dela sua obra.) O que DFW faz em The Pale King, algumas das razões inteligentes e fundamentadas para apreciar o livro, está nestas críticas que recolhi num outro post, bem escritas por bons críticos literários norte-americanos. A crítica espanhola e, pior, os escritores espanhóis ignoraram o livro, que não apareceu nas listas com que os jornais encheram suas páginas de cultura antes do fim do ano. Será que eles não leem em inglês? Pode ser, que coisa patética. Mas a magnífica tradução de Javier Calvo ao espanhol está nas livrarias há três meses. Eu li essa tradução, desisti do inglês logo no primeiro capítulo, sobretudo pela quantidade de termos sobre fiscalidade. O livro é em parte sobre o tédio, mas a escolha de uma agência tributária como cenário principal não é arbitrária, uma personagem, lembro, fala sobre como é possível definir a moral de um indivíduo a partir de sua postura diante do fato de ter de pagar impostos. Não é um livro só sobre o tédio, mas é um livro triste (com trechos muito engraçados). É um livro moral, é um livro sobre a condição humana - estas são características de todas as obras mestras e um exemplo das bobagens que eu digo que não quero escrever. Mais um clichê: a leitura requer certo esforço (alguns capítulos eu tive de ler duas vezes para entendê-los bem, mesmo em espanhol), mas este é totalmente recompensado. E finalmente uma dica para quem não queira se dar ao trabalho de ler o livro inteiro: leiam e releiam, não deixem passar a oportunidade de ler algo tão brilhante, tão estimulante, ETC. como o capítulo 46. São 60 páginas que podem ser lidas como uma novela. Trata-se do diálogo intenso (o adjetivo é do texto e é o mais apropriado), num happy hour, numa sexta-feira depois do trabalho, entre Meredith Rand, a mulher mais gostosa da agência, e Shane Drinion, o agente mais alienado. Sobre o passado dela. (Muitos capítulos narram fatos do passado das personagens que acabam se encontrando na agência muitos anos depois.)

3 comments:

Sergio Lulkin said...

Terá em português? Para as férias ociosas.

Sergio Lulkin said...

Chamei à Cultura mas só entregam em 8 semanas... em español. Lástima. Tu texto tiene aire apasionado.

Roger said...

Salut, Sergi!

Acho que a Cia. das Letras só publicou, por enquanto, Breves entrevistas com homens hediondos. Imperdível, contos inesquecíveis.

Forta abraçada catalana.