Thursday, June 04, 2009

Um irmão em busca de si



Meu irmão Oriol partiu para uma viagem diferente da minha. Foi fazer o Camino de Santiago. Tem muita gente no Brasil interessada em ir a Espanha para fazer esse caminho (em vez de, sei lá, visitar Barcelona, Madri, ou Al-Andalus; ou de ir até o Cusco, que fica mais perto, e fazer o caminho do Inca), então, enquanto espero alguma das crônicas que ele disse que ia mandar, vou comentar um pouco sobre sua partida.

Meu irmão é um maldito ateu, ou seja, não esta cumprindo nenhuma penitência. Não é um peregrino, como ele me disse no último e-mail. Também não é um hippy, longe disso. Então, o que ele foi fazer? O que o levou a querer caminhar durante um mês e meio, até os pés ficar cheios de bolhas, calos e sangue? (Nota: Meus pais são mais inteligentes. Uma vez por ano, vão de carro até um ponto do caminho; caminham por cinco dias; voltam a Barcelona, e até o ano que vem. Fazem o caminho por trechos. E tem mais: um cara da turma que não caminha faz o roteiro do dia de carro, carregando as malas dos outros, comida, etc. E isto eu não deveria dizer, mas... acho que dormem em hotéis! Como a Igreja Católica aceita qualquer coisa, eles têm seus documentos carimbados igualmente...)

O Oriol escreveu aquele verso: "Caminante no hay camino, se hace camino al andar", mas isso serve mais para a minha viagem (a escrita de um romance) do que para entender a sua. E, também: "El camino está en el corazón de quien lo hace", que é uma cafonice que nem dá para entender. Mas ele já me avisou: "Muito tem se escrito sobre os caminhos e a vida, e não é a minha intenção me pôr a fazer frases".

Diz que é um desafio pessoal e espiritual... "bastante espetacular para minha humilde natureza". (Eu acho que é mais uma espécie de procrastinação enfeitada, mas não vou dizer isso.)

O que ele busca? "Paz, amor e fé." (Podia ter voltado a Salvador de Bahia.) Fé não católica, ele acrescenta (já disse: maldito ateu!). Quer, também, "carregar as baterias" para enfrentar uma nova etapa vital "mais ativa e produtiva sobretudo pelo que diz respeito à arte cinematográfica, e menos pelo que diz respeito à publicidade". (Ainda bem que ele não escreveu "a arte da"; mesmo assim, eu fiquei puto, porque nessa frase está implícito um não abandono total dessa atividade que, em meu entender, poderia ser extirpada da face da terra e ninguém sentiria sua falta; o cinema, entretanto, está precisando urgentemente de pessoas que o tirem do fundo do poço.)

Ele procura, também (mas acho que ele diz isso de cara a la galería, isto é, para que as pessoas vejam), "um rencontro com um estilo de vida mais simples e natural", que o leve "longe do doente mundo ocidental" e perto de "coisas tão básicas quanto dormir com sono, comer com fome, descansar por cansaço, e sentir o trino dos pássaros ao amanhecer".

Não sabe o que vai encontrar, mas acredita que vai encontrar alguma coisa, pois escreve, cheio de mistério: "Todo o mundo que fez o caminho me disse que encontrou coisas".

Eu não sei o que ele vai encontrar, mas lhe adverti por telefone que dois preservativos era pouco. Respondeu que a aventura era espiritual, e que de qualquer jeito no caminho havia farmácias...

Não vai sozinho, vai com seu amigo Gerard, "e com todos aqueles irmãos que o destino ponha em paralelo aos meus passos, que tenham vontade de bater um papo e esquecer as dores do corpo (se são irmãs e lindas, muito melhor)" (ele que disse).

Prometeu à minha avó que não ia virar padre.

Disse que ver que tudo aquilo do que ia precisar cabia em uma mochila de 9 kilos lhe fez pensar.

Jurou aos irmãos (aos irmãos de sangue) que não tinha enlouquecido.

E, por último, me disse ao telefone que, como leitura, levava o Quixote. Eu lhe disse que melhor do que isso só os sete volumes de Proust, e ele me mandou calar a boca, me contou sua estratégia: não ia carregar o tijolão o tempo todo: ia ler e arrancar as páginas lidas. Eu só posso me curvar ante idéia tão engenhosa.

Vou pensar em uma recompensa para ti, irmão, se daqui a 45 dias chegas inteiro a Santiago.

8 comments:

uri said...

hey bro'

doncs sí, es camí és iniciat i sa meua intenció d'arribar a santiago no ha fet més que reforçar-se!!!!!

això és la hòstia i de fet no sé pas què fa la gent que no està fent el camí!!!!

eu gosto muito!!! de fet em sorprèn lo bé que em sento fent el que faig!!! Ja us ho explicaré enh un mail com déu mana, possiblement diumenge des de logronyo, però de moment només dir que sa meua fe creix amb sa meua força i que aquest camí és s'hòstia!!!!!

uri

PD.- el quijote és moooooolt gran!!!! Gran encert portar.lo, però de moment no m'he atrevit a arrencar les pàgines (serà pecat?). A més, jo estic escrivint la meva pròpia obra en forma de diari i si segueixo a aquest ritme acabaré fent un llibre ben gruixut

apa, caminem

caminante no hay camino, sino estelas en la mar!!!!

Elvira said...

Hola!
Ei, tot el que diuen del Camino és veritat. És tota una experiència!
Oju, que el teu brother tornarà "convertit"...
:))))

Buen camino!

Roger said...

Amb lo convertit que ja està, no ho vull ni pensar... ;)

Així ja l'has fet, el camí?

Petons!

Elvira said...

Fa cinc anys (ja???) en vaig fer un "trosset", de Roncesvalles a Burgos, en bicicleta. Sí, sembla més fàcil, però encara me'n recordo dels Altos de Navarra... i de la pluja i el fang!
Duia dues alforges i el sac de dormir, perquè era "año compostelano" i els albergs estaven a tope i a més, els caminants tenen preferència (lògicament), però la gent t'acull on sigui.
Et trobes gent d'arreu del món fent el Camino per motius ben diversos, però crec que en el fons, tothom busca el mateix.
Arriba un moment, no saps ben bé com, que el camí es capgira cap endins...
És una experiència molt maca, segur que al teu germà li agradarà molt.
Que s'ho passi molt bé!

una abraçada!
Elvi.

Roger said...

Segur que sí, que s'ho passarà molt bé, i que serà un viatge interior.

Fer aquesta caminada no deu ser gaire diferent de viatjar (viatjar, no fer turisme), que és una de les coses que més m'agraden, i que sempre té aquesta part de descoberta o de transformació d'un mateix...

Petons!

maritrini said...

uri es vanguardiaaaaaaa [2]!!

Roger said...

mirá vos maritrini, sho no sé si el Uri es vanguardia... la verdá, es un poco raro, hase dos años en junio estaba visitando la bienal de venesia y ahora anda por ese camino medieval... sho creo que está perdido y se está buscando, como tantas personas inteligentes y sensibles que no se adaptan a este mundo de m*****. quien sabe!, tal ves en esas formas más sensishas de vivir sí que hasha un poco de vanguardia, sho no sé! beso!

uri said...

gracias Maritrini!!!!!

Uri es vanguardia!!!!

Esto del camino es increïble, es un viaje interior y exterior a la vez y uno se siente un poco como frodo cruzando la tierra media, jejeje (vaya freakie)

en cuanto a si estoy perdido o no... bueno... algo... pero no sus preocupeis que andar encontrado siempre es menos divertido!!!!

Logroño ya pasó, vamos a Burgos!!!

Buen camino

uri