Monday, February 22, 2010

Capítulo 21 (novo rascunho)

Durante o voo que em 2000 me trouxe aqui já me fiz a pergunta, duas, três vezes, timidamente, iludido com a possibilidade de ver a resposta antes de chegar - a resolução de deixar a doença atrás tendo durado só umas horas. E tive medo, percorreu-me o medo de arruinar tudo desde o início. No trajeto de táxi até Manhattan não falei, não vi nada, meus sentidos embotados, ansioso como estava por chegar ao hotel e entregar-me em corpo e alma a respondê-la, erradicá-la de vez. Quão diferente do trajeto de há um mês, quando o taxista me anunciou a caída do avião no Hudson. Assustei-me, pareceu-me o pior dos presságios. "Houve algum sobrevivente?", perguntei. "Todo o mundo", ele disse, sorrindo com um limpo orgulho pelo espelho retrovisor; e, diante da minha perplexidade, ligou o rádio para que eu pudesse acreditar. Avançando por uma avenida de Bedford-Stuyvesant, disse-me que conhecia bem o lugar, pois foi ali que ele nasceu e cresceu, andou de bicicleta por essas ruas; mas que o bairro vivia há tempos um certo declínio. Ajudou-me a descarregar a bagagem em frente ao apartamento e me desejou "good luck" com um tom de apreensão na voz.

Do hall do hotel falei ao telefone com meu pai. Pediu-me que passasse algum tempo revisando os trabalhos que devia entregar logo: a história de Juanita (nesse então, só o projeto de um projeto) e a resenha crítica do romance que tivemos de ler. Pediu-me que dormisse cedo. A sua impressão, disse, era que eu estava superando a doença, mas insistiu que lembrasse o que havíamos discutido, não podia perder um segundo procurando esclarecer nada. "Com paciência, as respostas virão."

Não segui seus conselhos. Quando o neurótico precisa com maior urgência deixar de sê-lo é quando escolhe o caminho mais curto. E eu só tinha essa noite para me liberar da pergunta. Na manhã do dia seguinte entraria na residência estudantil, e de tarde estava marcada a reunião de confraternização, à qual queria assistir com todas as minhas faculdades. Jantei na primeira lanchonete que encontrei na avenida e voltei sem demora ao hotel. Meu propósito era insensato, tinha a vaga consciência de que, essa noite, também não conseguiria respondê-la. Mas abria-se ante mim uma possibilidade melhor: talvez pudesse ver, claramente e de maneira definitiva, o que em algum recôndito lugar eu já sabia: que mediante o pensamento obsessivo não ia resolver nenhuma pergunta jamais. Não era exatamente isso o que eu queria?

Com as cortinas cerradas, a pasta com os trabalhos em cima da mesa, os fluorescentes do banheiro tornando o quarto frio e asséptico como o de um hospital, recostei-me na cabeceira da cama, abracei o travesseiro e me dispus a pensar. A pergunta adquiria sua forma habitual: a de uma frase com todas as palavras, palavras cujo sentido estava por um fio. Era a última de uma série interminável. Depois de sua formulação, nada, só um leve ruído de fundo. Fui até a mesa e fiz no caderno uma cruz. Apertei o travesseiro de novo, fechei os olhos, respirei fundo. Um pestanejar inoportuno deixou entrar um fiozinho de luz, afugentou as palavras. Fiz mais uma cruz. Deitado de costas, em vez de verbalizar interiormente a frase tentei evocar a situação, o cenário completo: a ilha de Menorca, o porto de Maó, o bar onde estivemos dançando, a estrada escura, a casa de campo, o quarto de Lídia, que ainda estava acordada. As imagens também se desmanchando. Suava, sentia a opressão no peito aumentar. Mais tarde, fui ao banheiro. Sentei-me na tampa da privada, afoguei o rosto nos braços. Pensei: Entrei no quarto de Lídia e lhe disse... Entrei no quarto de Lídia e disse: "Eu...". Tentei pensar mais rápido, para que as palavras se amoldassem ao que queriam dizer. Repeti a operação de pé, com as mãos e todo o peso do corpo contra a moldura do espelho, evitando me olhar (olhei: um rosto feio, sério e tenso). Formulei a pergunta em voz alta, como me auto-recriminando. Cada vez mais cansado, com mais lástima de mim e, ao mesmo tempo aliviado, pois nenhum método funcionava. Não sei quantas vezes tentei (o caderno já não existe). Mas, perto das 3 h, as cruzes me pareceram suficientes. Era a prova tangível, aquela à qual iria me aferrar. Exausto, com a cabeça por fim clara, lembro que dormi placidamente.

3 comments:

Anna Faedrich said...

Ah... eu não vou mais comentar... tu deleta todos meus comentários! Assim não dá... ;)

;P

Roger said...

Eu deletei????

Anna Faedrich said...

Sim... junto com o post... e já não foi a primeira vez...

Ai... amnésia... rsrs

Beijo!