Wednesday, November 21, 2007

A partida

Quarto exercício do curso de criação literária da Faculdade de Letras da PUCRS. O exercício consistiu em escrever um conto a partir dos dois primeiros parágrafos de "A partida", de Osman Lins. Além de buscar uma possível continuação e finalização da história, procurei respeitar o estilo e o tom.


Hoje, revendo minhas atitudes quando vim embora, reconheço que mudei bastante. Verifico também que estava aflito e que havia um fundo de mágoa ou desespero em minha impaciência. Eu queria deixar minha casa, minha avó e seus cuidados. Estava farto de chegar a horas certas, de ouvir reclamações; de ser vigiado, contemplado, querido. Sim, também a afeição de minha avó incomodava-me. Era quase palpável, quase como um objeto, uma túnica, um paletó justo que eu não pudesse despir.

Ela vivia a comprar-me remédios, a censurar minha falta de modos, a olhar-me, a repetir conselhos que eu já sabia de cor. Era boa demais, intoleravelmente boa e amorosa e justa. Na véspera da viagem, enquanto eu a ajudava a arrumar as coisas na maleta, pensava que no dia seguinte estaria livre e imaginava o amplo mundo no qual iria desafogar-me: passeios, domingos sem missa, trabalho em vez de livros, mulheres nas praias, caras novas. Como tudo era fascinante! Que viesse logo. Que as horas corressem e eu me encontrasse imediatamente na posse de todos esses bens que me aguardavam. Que as horas voassem, voassem!

Aluguei um apartamento longe do centro da cidade, longe da praia. Um apartamento que, ao tudo, tinha o tamanho do quarto na casa que acabava de abandonar. Era bom morar sozinho, cuidar de mim. Não ter de responder a ninguém mais por meus atos, somente a mim. Era revigorante! Sem demorar, já na primeira semana, dediquei-me em corpo e alma a percorrer as agências da cidade, me oferecendo para o trabalho de jornalista, aquele que tanto ansiava. Mulheres bonitas, muito enfeitadas, atenciosas, recusavam invariável e gentilmente meus serviços e me animavam a não desistir. Eu insistia e insistia, e no fim do dia ainda conservava o bom humor, e ficava pensando no dia seguinte enquanto bebia cerveja num boteco perto de casa, da minha nova casa.

Aos poucos cansei-me de sair em busca de emprego, de usar elevadores, de sorrir para jornalistas que, mesmo devolvendo meu sorriso e dirigindo-me algumas palavras amáveis, não tinham interesse real em mim. Então comecei a perambular pelas ruas, e não raro acabava caminhando à beira mar, onde homens e mulheres de corpos jovens e elásticos conversavam deitados na areia, fruindo o sol, bebendo suco, longe da rebentação. Eu, passeando ou sentado num dos bancos da calçada, olhava-os com uma mistura de inveja e desdém, perguntando-me qual era sua ocupação, porque não estavam nesses escritórios dos prédios altos do centro, digitando relatórios, atarefados, subindo e descendo pelo elevador.

Unir-me ao grupo de corpos morenos e lânguidos deitados na praia parecia-me inalcançável, e as portas das fervilhantes redações dos jornais não estavam abertas para mim. Depois de um mês, recebi uma carta da minha avó, que reclamava veladamente do tédio e da solidão encontrados no asilo, na Serra, e interessava-se por minha nova vida, vida “cheia de emoção”. Não percebi ironia nas suas palavras, e deu-me um aperto ver que a velhinha olhava ainda pela minha saúde, que ela sempre pensou que fosse fraca, sem eu ter lhe dado nunca motivos para isso. Provavelmente por causa da morte prematura de meus pais, ela me via como um bicho temerário, um animal sem carapaça abandonado num mundo demasiado incompreensível e cruel.

Meus passeios fizeram-se cada vez mais longos, e roubavam as horas e os dias antes dedicados à busca por trabalho. À falta de oportunidades somou-se uma vontade cada vez menor de me encerrar num escritório, e tive a hilariante sensação de poder viver, quem sabe!, ociosamente para sempre, à imitação daqueles jovens das praias. Familiarizei-me com todos os recantos do meu bairro, e dos bairros da vizinhança, e de alguns morros; só não voltei às ruas e avenidas cinzentas do centro da cidade. Ao anoitecer, conversava com minhas únicas amizades, amigos do boteco: pessoas tão desocupadas quanto eu. E dormia sem pensar no que ia fazer ao acordar.

Quando o dinheiro acabou chegou-me a notícia da morte da minha avó, que partiu sem nunca saber de meu fracasso, embora talvez o suspeitasse, pois tinha me criado e amado e no fundo conhecia-me bem. A oportunidade dessa morte me deixou incomodado, fez-me sentir culpado, embora a notícia não fosse inesperada: minha avó era velha e sofria de uma estranha doença. Fiquei mais apenado ainda por não poder assistir ao enterro, e encontrei uma justificação na minha paupérrima situação econômica. Essa, contra minhas inconfessáveis expectativas, não mudou. A casa havia sido vendida para custear o asilo, e minha avó deixou-me em herança somente três trajes surrados de seu marido, morto antes de eu nascer.

O que eu havia considerado uma liberdade forçada chegou ao fim. Vendi os trajes e todos os pertences que achei que podia dispensar, e o apartamento quedou reduzido a um mero e triste colchão no chão. A partida da velha, minha única parenta, converteu-me em uma pessoa desiludida, conformada, paciente, sem ambição, sem nada: um asceta. Passei fome, estive doente. Era livre, mas que liberdade era essa! Nesse mesmo mês comecei a trabalhar. Durante um ano fui varredor de rua, pedreiro, assistente de mecânico, vigia noturno num armazém de fogos de artifício, vendedor de livros para crianças, aprendiz de cabeleireiro. O dinheiro que ganhei foi pouco, mas minhas despesas não iam além do aluguel e uma comida por dia.

Vejo hoje que a morte de minha avó, cujos cuidados, atenções e afagos tanto me haviam irritado, cujo amor asfixiante me havia levado a tomar a decisão de partir, fez de mim a pessoa que eu achava que eu era quando subi a esse trem. Me dou conta hoje que esses bens difusos, que eu pressentia mas não sabia exatamente quais eram, mulheres?, praias?, fascinantes amizades?, não estavam esperando por mim; que o que encontrei não foi aquilo que eu buscava, só o pareceu, nos primeiros meses, quando a cidade ofereceu-se-me como um oasis, uma ilusão. O que vai ser da minha vida agora, só Deus sabe. Seja! Eu só sei que não vou embora daqui.

4 comments:

Anonymous said...

wowwwwwwwww
:-O

espantosamente bom!

;o)

Roger said...

wow!

:o* :o* :o***

Josep said...

Sí senyor, tan bo que fa ràbia. No defallissis.

Per on pares?

Una abraçada ben forta!

Roger said...

Obrigadu Jusep! :))

Divendres que ve arribo!

Ens veiem i expliquem alegries i penes!