Friday, March 19, 2010

Capítulo 26 (novo rascunho)

Eu já gostei da solidão. No colégio e nos primeiros anos de faculdade, eu escrevia, e então a solidão era boa. Fazia-o com prazer e facilidade, sem dar-me conta, e o que me empurrava era esse prazer, embora mentiria se dissesse que o reconhecimento pelos outros não me animava, fazia-me sentir orgulho ou, com todas as reticências, levava-me a pensar num futuro próximo em que poderia escrever mais e melhor. A neurose também estragou isso (e, anos depois, tive de reaprender tudo de novo, lutando contra o medo e a angustia). Já neurótico, fiz da solidão uma necessidade. Procurava-a para tentar resolver as perguntas e para não cair em novas ciladas (dar respostas que logo iria me arrepender de ter dado, fazer comentários pelos quais iria ter de me julgar). Tomava o café da manhã sozinho, demoradamente, antes de entrar a trabalhar na construção do centro comercial - necessitado desse momento de paz antes de enfrentar o convívio. De carro, levando comigo um livro, escapava seguido à praia de Castelldefels, larga e comprida; ali, deitado na areia, sentia menos pressão e podia manter as perguntas na linha. É só agora, em Nova York, neste pequeno apartamento provisório, que a solidão é indesejada, e estar entre quatro paredes deixou de me agradar. Aqui não tenho nada. Raras vezes ligo a TV, a telona de plasma que me espelha e que a zeladora, uma mulher de sotaque francês, apresentou-me admirada ("TV a cabo, mais de 200 canais"), acariciando a borda, olhando-a e me olhando, como se o aparelho fosse um companheiro a quem eu, dando uns passos à frente, pudesse cumprimentar. Pelo visto, diminuiu a capacidade de o público manter a atenção focada por mais de 15 minutos - proliferam os programas com essa duração. O que é possível oferecer em 15 minutos, eu não sei; com sorte, a chance de o espectador dar uma ou duas gargalhadas (que não é necessariamente pouco). Para filmes, filmes longos, sou eu quem não tem mais paciência, não para assisti-los do sofá. Na geladeira, também último modelo, o mais interessante é o ímã, o mascote de uma loja de brinquedos, um dragão antropomórfico multicor. Dentro há somente há água e maçãs; o que compro na loja de conveniência, como no dia. Na máquina de lavar roupa não toquei. Prefiro ir à lavanderia, do outro lado da rua, onde sempre encontro alguém. Quando não é uma família inteira, com as crianças (tenho a sensação de que são elas, as crianças, que mantém viva na cidade a possibilidade da interação com estranhos), é a dona, que na verdade não é tal, só quem cuida do lugar - ou passeia, porque aqui tudo é automático: mulher alegre e prestativa, de Santo Domingo, louca por novelas e muito maquiada, que rebola no local abafado como num salão de festas. E tenho, finalmente, a cama, o dormitório, que eu chamo de cama porque isso é o que contém: um colchão enorme que deve ter sido difícil introduzir aqui e um armário cujas portas abrem só 30° e seria melhor desmontar. Estou obrigado a entrar no quarto descalço, ou com um pé à frente do outro, como na corda bamba. (Podia ter perguntado à mulher se o quarto foi invenção dela ou de algum locatário com debilidades especiais.) O colchão sobredimensionado, onde caberiam até quatro pessoas, é só para mim, e aproveito-o para deitar em posição de crucificado, em T ou em X, porque faz bem às costas. Sinto saudades de quando dividia quartos. Em casa, quando criança, com meus irmãos; em hotéis, em pousadas. Nem digo a cama e com uma mulher. Vontade, simplesmente, de compartilhar o espaço. É bom dormir num quarto com alguém. É ruim - não é engraçado - que escrever seja um trabalho solitário.

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