Tuesday, June 10, 2008

Eu sou uma mulher Almodóvar

Conto que eu vou entregar amanhã na Oficina de Criação Literária. Dedicado à incrível Rose, que foi a primeira em lê-lo e fez algumas sugestões. :p (Nota: HQ = história em quadrinhos = comic.)


- A senhora ainda não acredita, né? - fala de novo o travesti. E a seguir interpreta com voz grave, em um espanhol duvidoso: - "Sho antes era camionero. Luego me hise puta".
A mulher ao lado dele olha ao seu redor mais uma vez - todas as fileiras lotadas -, e logo à direita, para o filho, que tem um HQ no colo e observa as nuvens da janelinha do avião.
- Dessa também não lembra? Era eu! - diz o travesti. - Dez anos mais nova e com mais tetas. - E olha seus próprios seios com cara de resignação, segurando-os por baixo com ambas as mãos.
A mulher se inclina levemente para tapar a visão do filho e lança um olhar furioso ao travesti, que se faz de desentendido.
- Já lhe disse: Pedro e eu, íííntimos.
- Está bem - diz a mulher, bufando, o olhar fixo no encosto do assento da frente.
- Desde os tempos da movida madrilenha - diz o travesti, se esforçando para pronunciar bem a enha. - A senhora sabe, né?, aquelas orgias.
- Faça o favor - pede a mulher, encarando o travesti de novo. Faz-se o silêncio por alguns instantes.
- Ai, mas como a senhora se irrita facilmente - diz o travesti, voltando a vista para o corredor. Faz o gesto de quem vai pegar uma revista do bolso do assento, mas dirige-se de novo à mulher:
- Mulheres à beira de um ataque de nervos, a senhora assistiu?
- Acredito que sim - ela concede.
- Nessa apareço também. De costas, é verdade. Mas juro pela Virgem Maria que sou eu.
- Parabéns - diz a mulher. - Não precisa jurar.
- Não tem como não lembrar - suspira o travesti, pondo os olhos em branco - do boquete no Antonio. Ííííntimos também, o Banderas e eu.
Olhos esbugalhados, a mulher se vira feito uma fera. Fala com os dentes apertados:
- Você não está vendo que tem criança aqui do lado?
- Ai desculpe minha senhora - diz o travesti. E acrescenta, ao ouvido dela: - Mas Virgem Maria, foi tão bom! É só lembrar e ficar molhada.
A mulher olha para o corredor à procura de uma aeromoça. Vira-se para o menino, que parece absorto em seu HQ. Crava os olhos no travesti.
- Senhora não me olhe assim, não seja careta - diz ele.- Olhe, seu filho não está nem aí...
- Se não cala essa boca suja vou gritar, seu filho da...
- Óóótimo, já estou sendo xingada. Eu ainda não falei mal da senhora, viu? E minha vida já é bastante dura assim.
Zangado, o travesti cruza os braços e fica calado. A mulher vira-lhe as costas e passa a mão nos cabelos do filho. Minutos depois, uma aeromoça chega ao lado do travesti com o carrinho das bebidas.
- A senhora vai querer...
- Um suco de laranja, obrigada - diz ele. E inclinando o pescoço, fitando a cara da moça, pergunta: - Adivinho você é de Salvador.
- Mais ou menos - diz a aeromoça, sorridente. - Eu sou de Santo Amaro.
- Puxa - diz o travesti. - Sabe que eu sou íííntima do Caetano?
- Ah, é? Como é isso?
- Pois olhe só, eu sou atriz, pode crer? E já trabalhei com o Almodóvar, conhece, não? Pois ele é ííííntimo do Caetano. Eu é que sou íííntima dos dois!!!
- Mas que maravilha! Depois assinaria um autógrafo para mim?
- Claro! Imagine! - diz se empertigando travesti.
- E o menino, o que esse menino vai tomar? - pergunta a aeromoça.
- Para o menino somente um copo de água, obrigada - responde a mãe.
- E a senhora...?
- Para a senhora - se adianta o travesti - um homem tão macho quanto puder encontrar.
A mulher, o rosto incendiado, se joga em cima do travesti, o agarra pelo pescoço e intenta afogá-lo. A aeromoça pede socorro. O filho, com a água derramada sobre o HQ, olha para sua mãe surpreso, com cara de não reconhecê-la mais.

4 comments:

AKessler said...

Roger, adorei o conto. Posso dar uma sugestão? Eu terminaria o conto na frase do travesti, do diálogo com a aeromoça: "Sabe que sou íntima do Caetano?". Fim. Que achas?

Roger said...

Que bom que tu adorou!!! :)))
E a sugestão é muito boa! Só que não sei, acho que viraria um outro conto... É assim, para mim o travesti não é do tipo mentiroso compulsivo; se fosse, é verdade que esse final que tu propõe seria melhor. Para mim é alguém que está zombando da mulher careta, que quer se divertir levando à mulher a um um ataque de nervos. Talvez tenha que modificar alguma coisa no texto para que isso fique mais evidente! :) MUITO obrigado pela sugestão porque a coisa boa da oficina é isso!

Beijo!

srtaParker said...

sr Roger, compartilho de Ana Kessler, uma preciosidade ficcional o conto que escreveste!
Gostei mesmo.

Parker
:)

Roger said...

Obrigadão, señorita! Fico feliz! Sabe que sou íntimo da Penélope? Sério!!!!

Roger