Friday, November 13, 2009

Capítulo 10 (novo rascunho)

Quem esteve apaixonado alguma vez compreende sem dificuldade o amigo apaixonado. Mas como pode um amigo, mesmo um psicólogo, compreender a quem sofre uma neurose ou algum outro tipo de doença mental? Como pode fazer uma ideia do modo em que a mente da pessoa opera? Além da trilha, o caminho ou a estrada da saúde mental, existe um espaço infinito para perder-se. E se nem existem palavras para definir o estado em que os pensamentos fluem, como hão de existir para descrever esses outros lugares (cada um diferente, eu imagino) em que as mentes doentes se instalam? Longe de se resignar, e apesar de uma solidão de estremecer, o doente tateia, procura um caminho de retorno. Experimenta métodos, atitudes, terapias, fármacos. Até descobrir que, por alguma dessas vias, vai se reaproximando, pouco a pouco, da normalidade, do estado anterior. Os conselhos, sugestões ou empatia dos psicólogos, familiares ou amigos não lhe servem de ajuda substancial: esta é sempre aproximada, nascida do que eles são capazes de interpretar prestando atenção às explicações (comparações, metáforas: porque faltam as palavras) e preenchendo os espaços vazios com seus conhecimentos ou experiência. O doente percorre o caminho só, sem a certeza de que leve a bom porto (ao contrário: com o temor indizível de que o sofrimento não tenha fim, de que não haja saída) e sem dispor de maior confiança do que a própria.

7 comments:

ana said...

ô, Roger, vai com calma, ainda não consegui comentar nem os primeiros!! hehe. só queria dizer que esqueci de dizer que li o livro dos pinguins naquele fim de semana mesmo, e entendi (quase) tudo, e é uma graça!:)

Roger said...

Oi Ana! Tento escrever com calma, sim, se não o resultado seria terrível. Mas o prazo é julho, e a história é longa...

Fico feliz de saber que gostou do "enorme livrinho" dos pingüins! :))

Anonymous said...

"o doente tateia, procura um caminho de retorno. Experimenta métodos, atitudes, terapias e fármacos; até descobrir que, por alguma dessas vias, vai se reaproximando, pouco a pouco, da normalidade... Mas nem os conselhos, sugestões, empatia de psicólogos, familiares ou amigos lhe servem de ajuda sustancial."

Diria, no mínimo, que esse é um capítulo pesado. Mas não lhe digo isso como uma crítica negativa. Pelo contrário, está muito claro o quão duro e complexo é viver com a neurose. E creio que deve ser também muito difícil para as pessoas próximas (familiares e amigos, por exemplo) conviver com alguém que sofre com esse problema.

Eu tenho uma amiga que namorou um rapaz neurótico, e a única coisa que ela conseguiu me dizer quando perguntei porque ela terminou o namoro, foi que não dava mais, que ela não conseguia mais compreendê-lo, porque a cabeça dele atrapalha o rumo do próprio coração.

Quando ela me disse isso, chorando, eu quase consegui captar o peso do que deve ser conviver com alguém assim. Sem esquecer, claro, do quanto deve pesar a vida de um neurótico.

Uma vez, conversando sobre isso com um colega, que é estudante de psicologia, ele me disse que os neuróticos têm grandes dificuldades em lidar com os temores (por mais pequenos que eles pareçam ser); são em geral pessoas indecisas, que criam conflitos internos que podem gerar grandes conflitos e atritos com seu "mundo exterior."

Muito delicado tratar de um tema desses. Mas fico admirado que vc esteja conseguindo fazê-lo.

Um abraço,

A.E

Roger said...

Obrigado. :)

É pesado, sim. E obrigado por esse exemplo.

Atrapalha (quando não anula) os sentimentos. E também os sentidos e as sensações.

Talvez não deveria contar isso aqui, para não atrapalhar a leitura, mas eu passei por uma dessas, e provavelmente uma das forças que me ajudaram a sair foi saber que depois poderia contá-lo.

Bom, espero que as pessoas que acompanham desconsiderem isso. Porque "não é tudo verdade", pretendo romancear, escrever um romance, se não seria muito chato, para o leitor e para mim.

Abraço!

Roger said...

Ah! É não é só disso que tratará a história. Nem só do que acontece/aconteceu ao narrador. :o) :)

R. said...

"Quem esteve apaixonado alguma vez compreende sem dificuldade ao amigo apaixonado. Mas como pode um amigo, ou mesmo um psicólogo, compreender a quem sofre uma neurose ou um outro tipo de doença mental?" O início é bem vicioso, puxa o leitor a seguir em frente, de se sentir na curiosidade de conhecer este tema... muito complexo de se expor, ainda + em escritas. Nada de palavras "científicas" demais ou até mesmo daquelas palavras difíceis q só o Santo Dicionário pode ajudar (E ADORO!)... Bom, para um leeeigo, neste assunto, como eu, ficou bem claro - um pouco - sobre as pessoas que vivem com neurose... um pouco. Eu conheço uma bela menina q tem problemas semelhantes, porém até q ela se sai bem, digo, da descrição q tu fez aqui, creio q ela seja mais leve nisso tudo... é claro é o q eu acho, é o q ela me mostra... "Ele percorre o caminho só, sem a certeza de que leve a bom porto" Amei isto!
Tou amando muito tua escrita Ru, muito gostosa mesmo, me conforta, me faz até largar artigos só para ficar viajando por aqui - rsrsrsrs.
Bjs do R.

Roger said...

Obrigado R.! Puxar o leitor a seguir em frente é muito bom, né? Palavras difíceis... só quando sejam imprescindíveis! Obrigado por todos os elogios!

Beijos!