Friday, November 06, 2009

Capítulo 3 (novo rascunho)

Mas por enquanto espero. Evito as ruas e avenidas por onde andei em 2000. Sempre ao norte de Union Square, caminho sem rumo, depressa por causa do frio, ouvindo o náilon do casaco crepitar, como se revestido por uma película de neve. Quando não aguento mais, sentindo pontadas na testa e nas mãos, enfio-me em qualquer lugar: uma loja de departamentos, o vestíbulo de um prédio de escritórios, a entrada de um museu. A Biblioteca Pública serve bem a esse propósito. Na sala de leitura, abro minha pasta, pego o livro e a revista que, junto com um caderno, levo sempre comigo e, sem vontade de ler ou escrever, observo os estudantes, as pessoas que enchem o salão, as altas prateleiras, o teto esculpido em madeira. Perto do prédio da biblioteca, na loja de uma rede de fast food, tomo uma sopa quente, servida em copo de papel.

Reparo em certos prédios como se fosse a primeira vez. Respirando através do cachecol, recuo até obter uma visão melhor. Olho as vitrines das lojas do térreo, deslizo o olhar pelos andares da parte central; subo e me detenho em andares de perímetro menor, mais adornados, com elegantes frisos e vãos de janelas; até chegar aos últimos, com suas gárgulas e seus pináculos, que, entrefechando os olhos, enxergo recortados no céu. Fantasio sobre a identidade dos moradores dessas torres medievais. Imagino carpetes velhos e gastos, assoalhos rangendo, corredores sombrios conectando elevadores antigos e novos.


Nessa postura não reconheço o jovem com um objetivo específico para estar aqui. Reconheço a atitude que, outros dias, tem me levado ao Museu do Brooklyn, eu encantado diante das máscaras africanas e dos totens do alto saguão, seccionados longitudinalmente, remontados e segurados com cercos de metal; ou, no Museu de Arte Folclórica, diante das superfícies lisas, vermelhas, das saias das meninas pintadas por um artista amador. Um estar sem estar, porém um estar sem estar prazeroso. Como se meus sentidos entrassem em contato com os objetos, de maneira imediata. Terá meu pensamento - imagino, sorrindo - se espantado com meu grande ressentimento e ido além, retrocedido demais?

Na mala trouxe livros e pilhas de papéis; fotografias, impressões de e-mails; cadernetas, cartas, caixinhas que nem sei o que contêm, que em Barcelona não abri. Arrumei os livros na estante baixa em frente ao sofá; o resto ficou tudo em cima da única mesa, na cozinha. Talvez nada disso venha a ser de utilidade. Algumas dessas coisas poderiam inclusive me atrapalhar. Mas é pouca a confiança na recordação dos fatos, ou na generosidade da mente para me presentear com pensamentos, e o material guardado de nove anos atrás, junto à possibilidade de revisitar certos lugares, parecem-me bastante preciosos, algo a que vou ter de recorrer.

5 comments:

Anonymous said...

:)Não quero lhe perturbar e nem atrapalhar teus rascunhos mas, como leitor, tenho umas observações. Observações! Não correções.

1)"que faz o nylon do casaco crepitar."
(parece exagerado, mas ficou bonito e dá pra se ter uma noção do quanto estava frio!).

2)"Reconheço a atitude que, outros dias, tem me levado ao Museu do Brooklyn, deixado obnubilado diante das máscaras e.."
(Não estou corrigindo nada, mas é que pra mim, quando terminei de ler essa parte, senti falta de um pronome. Não seria o caso de "...e me deixado obnubilado"?

3)"Terá o meu pensamento - imagino, sorrindo - se espantado com o meu ressentimento e ido além, retrocedido demais?"
(Gostei demais dessa parte!)

4)"Na mala trouxe livros e pilhas de papéis; fotografias, impressões de e-mails, cadernetas, cartas, caixinhas que nem sei o que contêm... (...)Mas a confiança na recordação dos fatos, na generosidade da mente para me presentear com pensamentos ou lembranças, é pouca, e o material que guardei de nove anos atrás, junto com a possibilidade de revisitar os lugares, parecem-me bastante preciosos, algo ao que não posso renunciar."
(acho bom que o personagem não renuncie a "caixinha de lembranças" que tem. rsrs. Tenho uma amiga que tem uma caixa cheia de recordações, tudo misturado aos milhões de cartas, de fotos, de postais, de objetos, de lágrimas, de sorrisos, de dor, de desespero... mas, acima de tudo, de VIDA).

Anonymous said...

P.S: esqueci de assinar o comentário. Mas é o mesmo Anônimo educado que lhe visita quando pode.

Roger said...

Não perturba nada, muito pelo contrário, obrigado pela atenção. Isso do nylon... talvez seja exagerado (mal escolhido) o verbo, "crepitar". O pronome... eu adoro, já está corrigido, são muito importantes, esses detalhes. A personagem não vai renunciar às lembranças, não, hehe! (Mas eu pessoalmente gosto de jogar fora as coisas.)

Raquel said...

Gostei muito, em especial, do último parágrafo! Depois conversamos. =)

Roger said...

Que bom que gostou, Raquel!! =))