Friday, November 13, 2009

Capítulo 11 (novo rascunho)

A descoberta, na vizinhança, numa esquina deste bairro semi deserto e de brownstones depauperados (alguns possivelmente abandonadas, a julgar pelo mofo nos tijolos e pelas portas e janelas trancafiadas) de um impensável café, tem levantado meu ânimo e reduzido a frequência de meus deslocamentos a Manhattan. Este é o único lugar (com a exceção de a barbearia, que, de fora, parece-me um centro multi-uso para homens em idade de se aposentar) onde encontrei mais de cinco ou seis pessoas compartilhando um mesmo espaço. À esquerda da porta de entrada, um sofá e duas poltronas recriam uma pequena sala de estar. Numa dessas poltronas, de manhã, leio o jornal, com maior ou menor abandono segundo minha leve ou pesada consciência, que depende de ter escrito ou não. Do outro lado da porta, na parte que forma esquina, igualmente envidraçada e com luz de dia, há um aparador com dúzias de revistas e jornais locais e outras duas poltronas, às vezes aproveitadas por duplas que marcam suas reuniões de trabalho aqui. Duas grandes mesas de madeira, antigas, com seus bancos respectivos, encostam por um extremo à parede, adornada com arabescos que parecem de pão de ouro. Xícaras de papel pintadas por crianças, penduradas no teto por fios de lã, giram em cima delas. E no balcão estão à mostra, em bandejas de pé, bolos e cup cakes caseiros - deliciosos.

No corredor que leva ao banheiro há uma mesa menor, com um banco de concreto revestido de almofadas e encostos com motivos indianos. É neste cantinho, separado do acesso ao banheiro por uma prateleira repleta de livros e jogos de mesa, que eu escrevo, à luz de um abajur. Ou poderia escrever. Porque eu não consigo pensar, só consigo esperar meus pensamentos virem. Então, eu me distraio. Repasso o contorno de uma ou outra palavra (o nome do café, o título da música que toca no som), dou-lhe volume e perspectiva. Contemplo as xícaras suspensas no ar. Reparo nos fregueses: jovens que, havendo empilhado nos bancos suas peças de agasalho (casacos, gorros, luvas, cachecóis), digitam ou leem em seus MacBooks (todos iguais). Estão tão concentrados, e sentam tão perto uns dos outros, que poderiam se confundir de xícara de café, pegar a torrada da pessoa ao lado, pois nem quando dão uma mordida desviam a atenção do computador. Quem já está sentado dedica um aceno de cabeça cordial a quem chega e senta, mais um quando os olhares se encontram por acaso. Mas ninguém estabelece uma conversação com ninguém. São todos educados e discretos, trabalham em silêncio e sem interrupção. Gostaria de saber quem são, quais são seus trabalhos. Alguns têm idade para ter sido meus colegas de curso - poderiam estar lendo um original. Quando levava a família inteira ao restaurante (ir a restaurantes fazia parte de seu trabalho), meu pai costumava brincar de adivinhar, pela linguagem corporal, o futuro ou passado recentes dos casais, e gabava-se de nunca se enganar (quem iria comprovar). Agora posso dar-me ao luxo de imitá-lo, livre como estou dessa limitação: as pessoas não são mais sombras. Mas os jovens não falam, estão isolados. A dona do café, entretanto, no início lacônica, sorri para mim, e o garçom e a garçonete me reconhecem. Não se vestem como garçons: suas roupas são iguais às dos fregueses, folgadas, surradas; compradas, provavelmente, em algum brechô do próximo Williamsburg.



Minha irmã tentou me ajudar a abandonar a pergunta mais persistente - a mesma que levei comigo a Nova York. Sentados na areia da praia da Barceloneta, disse-me que construía minhas perguntas sobre certezas. Disse que a noite em que entrei no quarto de Lídia, em Menorca, o fiz por motivos que eu sabia. Fossem quais fossem esses motivos, não podia ter dúvidas ao respeito. Disse que, depois, com efeito, podia ter me perguntado qualquer coisa: se o que fiz foi correto ou incorreto, se tinha desculpa ou não, se agi de maneira egoísta ou como teria feito outra pessoa em meu lugar. Mas que aquilo que eu realmente fiz, aquilo que aconteceu, eu não podia não saber. Essa tarde fui tranquilo à academia. De noite jantei com amigos sem nenhuma pergunta a me incomodar, com a cabeça clara, conversando com eles. Esperando, simplesmente, a lembrança, aquele relâmpago de lucidez talvez me fizesse chorar pelos meses perdidos.

Mas antes da revelação aparecia, sempre, a pergunta. E eu cedia, fazia-me a pergunta uma, cinco, vinte vezes. Até que Lídia já não era minha amiga, até que já não era uma garota, nem um nome: só cinco letras levadas à força à minha mente, junto com as letras de outras palavras carentes também de sentido, zunindo dentro de mim.

Não podia falar em dúvidas, minha irmã tinha razão: não as tinha. Não podia duvidar do resultado de somar dois e dois; não podia duvidar de ter comido um croissant de manhã. Também não podia duvidar de que amava Lídia. Nesse caso, teria perdido o contato com a realidade. Mas podia perguntar-me. Qualquer um pode perguntar-se qualquer coisa, essa é uma das vias que conduzem à loucura.

5 comments:

Anonymous said...

Achei esse capitulo fabuloso!
É verdade.

Esse tipo de descrição detalhada me empolga muito numa leitura, Roger. Porque dá pra ficar ilustrando tudo, por meio da imaginação. É como se eu estivesse observando o personagem e vendo todos esse mobiliário que ele cita; as expressões e os gestos das pessoas...

"Não vestem como garçons: suas roupas são iguais às dos jovens nas..." (acho que faltou um "SE" antes do verbo - "Não se vestem..."

Continua escrevendo! ;)

Mais um abraço,

A.E

Roger said...

Obrigadão! Eu também gosto desse tipo de descrições nos romances que eu leio.

Continuo, sim!

Valeu pela correção!

Abraço,


Roger

R. said...

Eeeeeeeeiiiiii Rapaz.... }:^O Pq PAROU o textooooo, porra Ru, tava gostoso d+ meu rei, faz isso + não viu... hummm, q bom é sentir isso viu, lhe digo q senti tudo tudo tudo, bem lá na fábrica de ilusões que há em minha cachola - rsrsrs - "...(com a exceção da barbearia, que, de fora, parece-me um centro multi-uso para homens em idade de se aposentar)." E que eu já fui muuuuito quando era guri (e tinha + cabelos é claro! :^D)

Valeu mesmo Roger, só achei ele muuuuito pequeno - rsrsrrs ...
Eeei moço, tu não quer ser um destes caras q leio aqui nos meus artigos?? Poxa, tu daria + emoção, seria + divertido... Estes caras q escrevem artigo deveriam ser tudo escritores, é uma frieza da porra, me sinto uma cerbreja saindo do freeze a cada um q leio..desculpe a comparação... é q tou com vontade da porra de beber uma loura hoje, agora, JÁ!!! :^)
Sorte Roger - Continue sempre!

Roger said...

Esses caras dos artigos acadêmicos... Bom, é que eles tem que enfeitar seus textos. Porque a concorrência enfeita. Então eles tem que enfeitar mais... é um círculo vicioso!

Boa loura! (Loura ou loira?)

R. said...

Tanto faz meu Amigo... o importante é estar gelada - rsrsrs