Tuesday, November 17, 2009

Capítulo 12 (novo rascunho)

Foi bom ter ido ao café todos os dias. Escrevi alguns parágrafos. Até sexta-feira, quando, por causa de uma tempestade de neve, metade da cidade parou. O tempo continua muito frio. Frigid, é a palavra que eles usam. É o inverno mais frio dos últimos anos. Anúncios no metrô pedem às pessoas que, se possível, permaneçam em suas casas. Nas margens do rio Hudson, formaram-se placas de gelo que balançam pela pressão da água, visível somente através de finíssimas fendas. Estes dias, a margem do rio oferece uma imagem surreal: a de um Airbus amarrado por cabos de aço a um dos cais, com o morro emergindo das águas e as asas e a parte da cauda submersas. É o avião que pousou no meio do rio e não afundou, ficou flutuando como um ganso, na tarde de minha chegada, simultaneamente ao pouso de meu avião no JFK.

Na sexta-feira da tempestade o café encheu, só ficou tranquilo depois do almoço. Nessa hora apareceu Anne. Foi um impulso: acenei; e, por ter acenado, senti que devia convidá-la a sentar. (Assim funciono.) Antes de ela despir o sobretudo e deixá-lo dobrado no banco, já estava arrependido. Anne é linda, de olhos grandes verde-escuros, cabelo loiro. Enquanto tirava as luvas e o gorro, para mim só existiram seus cabelos, amarrotados na cabeça, caindo em desordem ao longo do pescoço, encaracolados no suéter azul. Fui surpreendido pelo seu olhar travesso e aquele sorriso do primeiro encontro, e de imediato me encolhi, temendo o que ela ia fazer (o que talvez gostaria de já ter feito), para o qual eu não estava preparado.

Em vão lhe perguntei se ela havia chegado ao consultório. O trem nem chegou à estação, fui obrigada a dar meia volta, ela simplesmente disse. E assinalando meu caderno, que eu não tive tempo de esconder, perguntou:
-Esse é o livro?
Eu tinha um segundo para escolher. Ou estava escrevendo sobre um neurótico obsessivo, o que me deixava numa posição delicada, ou estava escrevendo sobre múmias, o que me deixava numa situação ruim. Ela escolheu:
-Era sobre o que, do Peru?
-Uma múmia. Você entendeu bem. - Senti-me ridículo por dizer que esse era o assunto e, ao mesmo tempo, tal qual um escritor, ofendido por seu esquecimento, ainda que fosse fingido, uma forma de provocação. Ridiculamente ofendido.
Ela percebeu e recuou. Ao fazer a pergunta, contudo, não tinha sorrido. Se alguma coisa, mostrou interesse, sincero ou não. Mudei o tom:
-Sobre uma múmia de mais de quinhentos anos, encontrada num vulcão dos Andes. - Tentei lembrar rápido do velho artigo de jornal. - Os incas faziam sacrifícios humanos aos deuses e ela, uma donzela, foi uma das eleitas. A encontrou, faz umas décadas, um explorador. Americano. De Illinois, se eu lembro bem. Quando o gelo fundiu devido à erupção de um vulcão vizinho.
-Então é verdade - disse Anne.
-O que.
-Que há uma múmia. - Sorriu de novo: - Que você está escrevendo sobre ela.
-Sim. Há uma múmia. Numa urna de cristal, a não sei quantos graus abaixo de zero. Em Arequipa. Você esteve no Peru?
-Não. Perto. Fiz uma viagem depois de formada. Estive no Brasil, Argentina, Chile.
-Onde você se formou? - eu disse, ainda querendo desviar a conversação.
-Aqui em Nova York - ela disse. - O que tem essa múmia? Qual é a história?
-Nada. Ela é linda, se você pode acreditar. Os incas sacrificavam as jovens mais bonitas. E está incrívelmente bem preservada. Com os cabelos, a pele, os olhos, as roupas, tudo.

O garçom trouxe à mesa uma omelete recheada de verduras. Anne temperou com meticulosidade a salada. Quando terminou, espetou uma azeitona, e olhando de novo para mim insistiu: queria saber da história.
-Esses são fatos que estão nos jornais - eu disse. - A história veio depois. Alguém gostou do relato que o explorador, ou antropólogo, esqueci o nome, escreveu sobre a expedição, e idealizou tudo o que leu sobre Juanita.
-A múmia.
-É. Conseguiu enxergar nas descrições uma mulher que não existia. Vai saber. Que existiu, só que quinhentos anos antes. Pode-se dizer que se apaixonou. Ou endoideceu, segundo a opinião mais sensata. - Adicionei: - E a minha.
Anne pousou o garfo no prato. Continuei:
-Desde esse momento, o homem só quis saber de Juanita. Você vê: uma história de amor impossível, maluco.

Anne, séria, por alguns minutos somente comeu, cabisbaixa. Eu, meio coibido, não soube o que mais dizer. Minha vizinha era realmente bela. Contra o desejo de observar seu rosto, virei-me repetidas vezes para os jovens nas outras mesas e a dona atrás do balcão, que lavava louça. Bela não como a jovem do patamar da escada, confiante, extrovertida, senão de uma beleza mais silenciosa, como devia sê-lo no consultório quando enfrentada com algum problema real. Com pequenas rugas entre as sobrancelhas e abaixo das pálpebras.

Queria lhe perguntar se também ouvia a música, de ritmo e melodia tão pouco familiares para mim, que, à noite, quando cansado de não ter escrito me deitava no colchão, incomodava-me e me impedia de ler. Havia auscultado as paredes e o chão e concluído que vinha do andar de cima. Mas achei que não era apropriado, e nesse momento não me importava tanto. Sem ter terminado a omelete, Anne fez menção de se levantar. Tinha um paciente aguardando, disse. De pé, pondo as luvas, pediu, antes de ir:
-Escreva essa história. Gostaria de ler.

Comi o que restou de sua omelete com outro café. Se eu duvidava de ter a capacidade, a força ou a vontade necessárias para escrever minha própria história, não ia escrever a de um homem apaixonado por uma múmia, num país que eu apenas conhecia, só para lhe dar satisfação.

7 comments:

Anna Faedrich said...

Roger,

esse capítulo está MUITO bom.
Eu não imprimi, li na tela mesmo. (olha só!)E fluiu muito. Uma beleza.

Gosto das descrições (necessárias) que tu faz da Anne. E também ficaria curiosa em saber dessa história da múmia rsrs

Mas acredito que a Anne não está muito convencida disso, hein? ;)

É um capítulo para começar a ler e não terminar, não desviar a atenção, não querer parar até chegar ao final.

Eu pulei, pois não terminei de ler os outros, conforme te mostrei minhas impressões, aqui em casa.

Já nem gosto mais de te elogiar, pois tu vive me repetindo que os elogios não servem muito. Mas, dane-se: tua escrita é especial. O que eu já li, não me desaponta, pelo contrário, me CONFIRMA o quanto tu é bom.

É isso.
Beijo.

Roger said...

NOSSA! Obrigadão, Anníssima!


(... Eu paguei pra ela postar isso.)

Anna Faedrich said...

:)

(Pois é, inclusive estou repensando o cachê...)

Leo Wittmann said...

Um dos meus capítulos prediletos! Parabéns, Roger!

Roger said...

Obrigado Leo! E obrigado 2 por acompanhar!

Raquel said...

Realmente muito bom!

Roger said...

Obrigado Raquel! =)