Thursday, November 26, 2009

Capítulo 16 (novo rascunho)

Se me importasse com datas, saberia o dia exato em que me aconteceu pela primeira vez. Faltava pouco para as férias de Natal, 1995. No antigo prédio da faculdade, na rua Balmes, quase não havia ninguém. Eram ao redor das 20 h, pois já tinha anoitecido. Fazia um mês que eu não via nem falava com Taís.

Estou no meio da escadaria aberta que leva do vestíbulo ao segundo andar, de face ao próprio vestíbulo e à biblioteca, por cujas portas de vidro vão saindo, em longos intervalos, os últimos estudantes. Estou sentado, pensando. A uns dez metros de mim, no corredor que comunica o vestíbulo com a entrada do prédio, meus amigos continuam conversando diante de um dos painéis envidraçados, iluminados por lâmpadas fluorescentes, onde estão penduradas, junto com avisos importantes do decanato, as folhas com as notas trimestrais. Eles virão me procurar, para irmos juntos embora. Eu vou me desculpar, dizer que vou ficar um pouco, buscar na biblioteca alguma coisa.

Há uns minutos tenho estado lá com eles, ao lado do painel que parece um aquário. E tenho perguntado a um amigo - um garoto alto, magro, de óculos - seu resultado numa prova. Ele tem respondido e, em seguida, surpreso e divertido, adicionado: "Eu já lhe disse". Eu tenho balbuciado, procurado de imediato uma maneira de me justificar, de justificar o esquecimento, atrapalhando-me, acredito, na escolha das palavras; e sido invadido por uma sensação de pavor nunca experimentada.

Por isso me retirei e me sentei na escada. Dou voltas ao que ele deve ter pensado (eu não me importo nada?). Tento lembrar as palavras de desculpa usadas (o que eu disse, exatamente?), deduzir o efeito que podem ter-lhe causado. Culpo-me pelo esquecimento, pergunto-me o seu porquê (é meu amigo, não deveria ter lembrado?). Meses atrás, antes de conhecer Taís, não teria me formulado tais perguntas, nem me preocupado com tão pequeno deslize. Semanas atrás, teria sabido respondê-las. Agora estou pensando, como nunca pensei. De uma maneira a tal ponto esquisita que em breve vou deixar de chamá-la de pensar.

Taís está comigo, tão presente que a imagino sentada ao meu lado na escada. A comparação é terrível. Ela sabia do que os outros gostavam. Qualquer percalço alheio a deixava sinceramente preocupada. Ela não teria esquecido algo tão importante como a nota de uma amiga numa prova; se ruim, teria ficado triste, se boa, se alegrado tanto ou mais do que a pessoa afetada. Colado no degrau, eu me censuro, me faço perguntas. Não tenho intenção de me levantar e ir embora, não sem antes ter-lhes achado resposta.

Além da inaudita urgência com que sinto que devo respondê-las, as perguntas adquirem uma forma pouco usual: são parecidas com frases, frases com todas as palavras, como se coisificando. À medida que as repito em minha mente, as palavras se tornam também mais concretas, como se as pensasse uma atrás da outra, separadamente. E, nesse processo, perguntas, frases e palavras, depois de pensadas, desfazem-se, esmigalham-se.

Os vidros que separam vestíbulo e biblioteca e a luz artificial, refletida nas placas azul-claro das paredes, transformam o lugar em algo parecido ao interior de um grande aquário, tal qual o painel, extravasado. E eu não estou nele: sinto-me, também pela primeira vez, dentro de uma espécie de bolha. Há, sem dúvida, um espaço entre meus pensamentos e o mundo ao meu redor, uma separação entre meus pensamentos e a maneira habitual ou normal de pensar.



Existe consenso entre os psicanalistas: as pessoas relutam em desistir de seus sintomas; superar sua doença representa um risco, pois ela serve como cura de outros conflitos. Numa sessão, muito depois desse primeiro episódio e de inúmeros mais, a doutora J.-P. fez essa consideração: que eu usava a doença com algum fim. A neurose, ela disse, era uma arma que eu usava contra o que eu queria ou não queria. Tive dificuldade em compreender. De que você tem medo?, ela perguntou. Lembrei dos meses em que namorei Taís, quando sempre tive medo: medo de sua tristeza ou melancolia; de fazer com que ela afundasse ainda mais. Disse à doutora que não suportei a culpa de tê-la magoado; que não suportei descobrir, ao lado dela, como eu era egoísta. Repeti que foi então que saí dos trilhos: quando quis deixar de sê-lo, quando quis mudar (ser, paradoxalmente, parecido com Taís). Mas entender minha doença como cura? Como arma para suportar (para não sentir) o peso da culpa ou do que eu descobri em mim? Se eu me infligi tal pena, tal tortura, com esse fim (pena de sete anos que poderiam ter sido mais), então meu inconsciente não teve piedade nem senso da medida algum.

3 comments:

Anna Faedrich said...

Ru,
teus capítulos estão ficando ótimos! Óti(sh)mos! ;)

Não há motivos para desanimar, amigo.
Não há MESMO.

Eu gosto MUITO das frases com as quais tu começa cada capítulo:

"Se me importasse com datas, saberia o dia exato..."

"Abro os cadernos que trouxe comigo..."

"Não procure em fúteis brigas de infância entre irmãos..."

"Alguém escreveu que nunca deveríamos sequer tentar voltar aos lugares onde fomos felizes".

Parfait!
Adoro!

Beijão :)

Keep doing it!

Marinella said...

Oi Roger, que ótima surpresa voltar aqui e encontrar capítulos do teu romance! A linguagem é tão linda, o texto tão envolvente, como é que tu pode em algum momento desanimar?

Roger said...

Obrigado Anna, por me animar agora e tantas outras vezes.

Obrigado também, Marinella, por me animar. Que bom que tu gosta! Há uns dias visitei teu blog. Tu deixou de escrever faz muito tempo! Não vai voltar????