
Ramon Cardús
(Clique na foto para ampliá-la.)
Palíndromo: No mar, Ramon.
(Que bom se a vida fosse uma praia...)
Here you'll find comments and stories about my stay in Brazil; translations of Brazilian songs, poems, short stories and pieces of news; photographs. Also, some film and book reviews. In Spanish, Catalan, Portuguese and English.

Post para os amigos do Brasil.
Ontem aconteceu uma dessas pequenas coisas boas. Fui no cinema com uns amigos. Chegamos lá e não tinha o filme que a gente queria ver. Tinha uns quinze, mas nenhum que a gente tivesse vontade de ver. Tinha filmes dos que a gente não sabia nada, e depois essas merdas (Spiderman 3, Piratas 3...; me desculpe quem goste, mas nem sequer os atores querem repetir essas experiências...). Todo o cartaz está uma merda nestes meses post-fevereiro, é sempre assim (meu irmão Oriol diria que "o cinema", em geral, está uma merda). Então a gente estava lá na bilheteria, na frente, com uma filona atrás de nós, sem saber o que fazer. E foi aí que o Arlo pegou as rédeas e escolheu ao acaso Half Nelson. Tudo bem. Pensei, no mínimo vamos melhorar nosso inglês. E foi bom também porque o filme começava mais tarde e assim eu podia jantar. Meus amigos já tinham comido, mas eu tinha ficado em casa vendo um jogo de basquete e ido direto ao cinema. Comi um sanduíche de sobrasada (não existe isso no Brasil, é coisa de Mallorca), e eles, queridos, me acompanharam comendo umas rações de batatas fritas. A gente conversou sobre viagens (vontade de viajar), amigos não presentes (Àlex, Cristina, Joan...), etc. E fomos ver o filme. Que não foi ruim, mas muito bom. O protagonista é um professor que dá aula de história a uma turma de (pre)adolescentes negros. E a protagonista é sua aluna preferida (e talvez mais inteligente), Drey. Ele, Dan, branco e magrelo, também é o treinador do time de basquete das meninas. E é viciado em crack. E tudo acontece numa periferia pobre duma grande cidade (agora sei que é Brooklyn, New York, mas podia ser qualquer outra urbe). Dan ensina à turma "dialectics", o processo mediante o qual os grandes câmbios teriam se produzido ao longo da Historia (marxismo, né?). Seria tudo um jogo de puxar, tirar, ceder, apertar... (Não é assim também, penso eu, nas relações humanas? Não tem post neste blog, parece ser, sem Renato Russo, e ele escreveu: "Estamos medindo forças desiguais / Qualquer um pode ver / Que só terminou pra você".) Dan, sempre muito dedicado a seus alunos, pede para eles fazerem atenção aos câmbios relativos aos chamados civil rights. Àqueles que, em algum momento da história dos Estados Unidos, favoreceram aos negros, aos homossexuais, ás mulheres. Mas... a história acontece num gueto, e esses câmbios são pouco perceptíveis. Dan é um homem solitário e viciado em drogas, como já falei. A escola, uma bagunça. Os alunos, todos pobres. O irmão da Drey está encarcerado por causa dum traficante "amigo"; a mãe trabalha como enfermeira 16 horas por dia; o pai... cadê o pai? O filme conta a história da amizade entre esses dois, menina e professor; uma amizade cheia de silêncios (que, engraçado, acho que chega ao ponto máximo quando ela, de fora do carro, chama ele de "asshole", e ele, de dentro, chama ela de "bitch"), em que a menina acaba sendo quem presta a ajuda maior. E conta, também, como o negro continua sendo discriminado. Os negros continuam sendo discriminados tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. Ah!, mas tem esse Barak Obama running for President!, alguém dirá. Ao que o Chris Rock poderá responder (num de seus hilários e revoltados monólogos): BULLSHIT. E ao que a Oprah dirá... (mas vamos deixar a Oprah em paz, não gosto dela; aliás, ela é objeto de algumas piadinhas no filme...). A igualdade fica longe. Mas, o que eu gostei do filme, além dela e ele serem pessoas boas, queridas, e a paisagem, extranhamente, bonita (é lindo ver a menina andar de bicicleta pelas ruas do seu bairro), é que as personagens lutam. Não é como nesses filmes tipo American Beauty em que brancos de classe média vivem infelizes em subúrbios sem saber o que fazer. Não. Aqui a pobreza é maior, mas as pessoas lutam. Mesmo estando sós, mesmo não tendo perspectivas de futuro ou sendo viciadas em crack. Ao sair do cinema ganhei uma guloseima da Anna, e ao chegar em casa vi que o site de críticas Rotten Tomatoes dava ao filme um 91% fresh.

Continuo ouvindo muito o CD A Tempestade, se bem que menos em comparação ao ano passado, quando ele não saía do meu reprodutor. Sei lá quantas vezes o ouvi seguido... Gosto muito do que dizem os autores do site da Legião onde procuro as letras (coluna á direita): "1996. Tchau... Parece que é isso que Renato canta em todas as faixas. Ele estava deprimido e não quis fazer foto para a capa nem dar entrevista. Marisa Monte compôs com Renato a música 'Soul Parsifal'". Minhas músicas preferidas são "A Via Láctea" e "Esperando por mim", e adoro a complexidade da letra e a linda música de "O Livro dos Dias", última faixa. Se bem que não deveria dizer isso, porque acho todo o CD uma maravilha. Dentre todos os da Legião, é o meu preferido, e o preferido da minha amiga Rose. E marcou minha vida, como a de tantos brasileiros. (Na verdade, não o CD, mas a obra, a personalidade e a história de Renato, de quem também li a biografia que escreveu Arthur Dapieve). Como aos quinze anos o fez Bruce Springsteen, cujo CD duplo The River também não me cansava de ouvir.
Ouvi muito The River quando voltei do meu segundo verão em Dublin (e aqui aparece, pela primeira vez, acho, a "fair city" do título do blog). Cada final de julho deixava atrás muitos amigos e um sentimento de independência e felicidade que só tinha lá. E esse segundo verão (1990) foi especialmente triste porque deixei atrás, também, o meu primeiro amor, uma linda menina de Madri. Tinha comprado o duplo CD The River na Virgin Megastore (que então era novidade: essa super loja nos fascinava, não havia nada parecido na Espanha) da beira do rio Liffey, e ele me acompanhou nas semanas de tédio e solidão do mês de agosto, já em Barcelona. Lembro que ouvia especialmente o segundo disco, onde parecem estar concentradas todas as músicas tristes. E que invariavelmente chorava quando ouvia "Fade Away" ou "Point Blank".
Fragmentos de una entrevista
En mi profesión, no tuve madre, no tuve padre, no tuve familia, no tuve a nadie. Aprendí solita, lo bueno y lo malo.
No soy getulista, no soy nada, carajo. No soy Dercy Gonçalves. No soy nada.

Para qué quiero premios. No quiero esa mierda. Quiero dinero. No me des premios, los odio. Tengo más de 20 placas, Dercy Gonçalves el carajo... Lo que vale es tener dinero para mantenerse, salir de la calle y no tener que ir al asilo ni al hospital de misericordia.
(D'un e-mail enviat al meu germà Oriol, que vol fer una ruta pel Brasil.)
Imitando a Maria, brasileira que mora na Suécia (tem o link ao seu blog na coluna à direita), resolvi fazer breves resenhas dos livros brasileiros que eu leio. Assim como as dicas ou traduções de músicas, acho que podem ser de interesse para alguém. Se não, vou fazê-lo mesmo para me divertir.

Douglas Silva (a la foto, a la dreta, amb Darlan Cunha) va viure la seva infància i adolescència a la favela Kelson, la més pobre del conjunt de faveles més gran de Rio de Janeiro, el Complexo da Maré, tocant a la badia de Guanabara. Després es va fer famós, primer per la seva participació a la pel·lícula Cidade de Deus, i després com a protagonista (feia de pare despistat; massa jove per saber cuidar el seu fill) de la sèrie de televisió Cidade dos homens (totes de la productora O2, una de les més innovadores de Brasil). Però abans va passar molts anys a la favela, cuidant la seva mare i els seus cinc germans, tots de diferents pares. Entrevistat a "Central da Periferia", un programa dedicat a ensenyar la cara amable de les faveles (que en general només surten als mitjans en relació amb casos d'assassinats o narcotràfic), Douglas parlava dels seus amics d'infància, ensenyava la casa on va néixer (que ja no existia: els carrers i parets de les faveles estan en constant mutació), el camp de futbol de terra on jugava, el lloc on s'estirava a veure aterrar els avions. La periodista va preguntar-li si alguna vegada s'havia imaginat volant en un d'aquells aparells (al mateix temps, es veien imatges de Douglas passejant per la Cinquena Avinguda de Nova York, on va anar a promocionar Cidade de Deus), i Douglas li deia que no amb un somriure tímid, ensenyant les grans dents blanques. Com si encara no s'ho cregués. O com si no s'ho mereixés. Llavors la periodista li va preguntar si, ja famós, encara era víctima de "preconceito" ("prejudicis"; no va fer servir la paraula "racisme"). I ell va dir que sí. Que encara ara, a vegades, passejant per la zona sud de Rio (la més rica), sentia el klek dels seguros dels cotxes tancant-se quan ell s'apropava. I va explicar que aquell so, el klek, klek, klek dels seguros dels cotxes, l'havia acompanyat durant tota la seva infància i li havia quedat gravat per sempre.
(Per l'Elvi i tothom que estigui interessat en la música brasilera -"Brasil é o país mais musical do mundo", R. Russo dixit.)